repórter

textos de Augusto Baptista

17 octobre 2006

Um ás da sobrevivência


 De uma prole de 27, a fome e a doença dizimaram 20. Joaquim Lopes sobreviveu à hecatombe familiar e cresceu com esse jeito ganhador. Aos 12 anos era ardina de sucesso; aos 30, o lendário "Lopes dos jornais". E depois de transitar por dois empregos de fato e gravata, aos 60 abraçou a profissão de trintanário.

Texto de Augusto Baptista

 

«As pessoas dizem que a farda me fica bem por eu ser muito alto, tipo inglês. Segundo vim a saber, um hotel requer à porta uma pessoa assim». Discurso convertido em números redondos, isto dá um metro e noventa de altura, incluindo «os cinco centímetros de boné» que acrescem à estatura.

Além das aptidões físicas, Joaquim Gonçalves Lopes tem queda para a relação com as pessoas, o que faz dele o homem certo no lugar certo: a entrada do Hotel Infante de Sagres, no Porto: «Relações públicas é a coisa mais deliciosa. Falo todas as línguas pela minha maneira de ser alegre, cativante. E sou receptivo na chegada, dinâmico a pegar nas chaves do carro, na bagagem dos clientes».

A educação vem-lhe dos jornais, admite. E também a auto-estima, os conhecimentos, as relações, factor decisivo para ingressar, desde há três anos, no lugar de trintanário do hotel: «Uma pessoa amiga, guia de turismo, passou por cá e achou o hotel despido. Como eu tinha aqui conhecimentos, deu-me para vir falar. E a direcção achou em mim qualidades, alguém com rasgo na vida, carta de condução...».

Foi nos jornais, foi na venda de jornais e revistas, onde tudo começou. A avó era ardina, ocupação que transferiu para a filha. E, aos sete anos, «para conhecer a clientela», já o Lopes andava de mão dada com a mãe «a fazer consultórios de advogados e a distribuir a Eva do Natal».

O pai, Auxiliar n.º 26 da Carris, trabalhava nas zorras — eléctricos de transporte de carvão. Mais tarde, transferiram-no para a cobrança, no atrelado do 5, «um carro próprio só para transporte de peixe e das peixeiras de Matosinhos, até ao mercado da Praça de Lisboa». Num e noutro posto de trabalho, o salário era magro, facto com consequências dramáticas: «A minha mãe teve 27 filhos e até ganhou o prémio da Obra das Mães, na Rua do Breiner. Mas a fome e a tuberculose — segundo a narrativa dos meus pais — mataram quase todos os meus irmãos. Foram 20».

O Lopes, nascido em 1938 na freguesia de Cedofeita, teve uma infância atravessada pela guerra, pelo pós-guerra. Os anos de 45 a 49, quando frequentava a escola primária na Rua de S. Miguel, recorda-os de «fome impressionante». Para sobreviver e por «ter uma sabedoria para todas as áreas de Ciências, História e até mesmo de caligrafia», pôs em prática o expediente de «dar explicações aos colegas da escola, a fim de ir buscar um bocadito de pão com marmelada ou queijo».

Vencido este transe, a partir dos 12 anos tornou-se «quase um industrial do papel, jornais, revistas». Às cinco da manhã saltava da cama, levantava o Notícias, o Comércio, o Janeiro, iniciava a volta: Rua do Almada, Cedofeita, Torrinha, Boavista, Bom Sucesso... «Acabava a distribuição à beira da Junta de Freguesia de Massarelos, onde está o Capa Negra. Vendia na ordem dos 130 jornais. No tempo em que custava oito tostões, ganhava 18 centavos por jornal».

 Às nove horas, já estava na estação de São Bento «fazia o foguete e o último comboio para a Régua». Abastecia-se com as revistas da manhã e, a rondar as 11 horas, montava banca à entrada de "O Comércio do Porto": «Custou um bocadinho a colar, mas os filhos do administrador Seara Cardoso, pela minha insistência, pela minha maneira de ser, deixaram-me lá estar».

Durante a tarde, fazia a zona do Café Imperial, do Café Palace... Aí a concorrência era muita: «Estavam lá 10 ardinas». Os quiosques nesse tempo eram poucos, que os ardinas «assoberbavam tudo». E, entre eles, o Lopes, o "Lopes dos jornais", sobressaía pelos seus pregões, atitude, conhecimentos, frenesi: «O cliente ia no eléctrico, chamava-me, eu entrava, vendia, saltava fora em grande velocidade, virava de costas e ficava assim uma espécie de pião».

 Com mágoa, em 1972, aos 34 anos, deixou-se «da vida alegre» dos jornais, «por um motivo de força maior»: a Caixa de Previdência. Enquanto ardina, nesses anos «não tinha direito a assistência, acesso à reforma». Como ele e pelos mesmos motivos, outros ardinas mudaram de vida: «Há 15, antigos, que fizeram como eu».

 A pensar na velhice e na Segurança Social, ingressou num emprego de pasta, fato e gravata, mais tarde noutro, serviço de cobrança, contacto com bancos, relações. Entretanto, a empresa faliu e empreendeu nova guinada na vida: «Deram-me três anos e meio de fundo de desemprego e depois dediquei-me à revalidação de cartas, livretes, assuntos de finanças».

 E há três anos, inesperadamente, fez-se trintanário: «As pessoas de destaque, clientes meus dos jornais e revistas, quando entram no hotel ou me entregam o carro, dizem Ó Lopes, você não podia fugir de mim, você tem um preparo, um perfil, uma vocação para isto que é formidável».

 

In Notícias Magazine – 13 de Outubro 2002

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