repórter

textos de Augusto Baptista

18 octobre 2006

Ah, Porto!


O Porto é uma cidade com um não sei quê de diferente e, na escrita, um espanto. Aqui se recebem lições de heterografia (e de muita humanidade). 1

Texto de Augusto Baptista

 

Casas, gente, ruas, trânsito: são as cidades. Nisso todas são iguais. O desafio está em encontrar as diferenças, desvendar as impressões digitais de cada uma, partir à descoberta, mesmo quando se fica.

Sempre que posso perco-me no Porto. Entrego-me à cidade sem reservas. Devagarinho, sem destino nem norte, deixo-me escorregar pelo corpo gasto das calçadas e parto na maresia das asas das gaivotas.

Aprendi o acordar estremunhado da cidade: manhãs de mil olhos piscos a mirar o Douro, entre cortinas de névoa. Sei-lhe o jeito de estar acocorada à beira-rio, corpo estendido em ondas de preguiça até ao mar.

Não estranho o pé descalço, o umbigo ao léu, a fome de pão deste Porto-criança. E, depois, quem sou eu para lhe censurar o tropeço no copo, lhe reprimir o beliscão travesso nas Fontaínhas, na noite de S. João?

O Porto é isto: “Compoi-se guardachuvas amola-se facas-tesouras”. Leio, enquadro, fotografo. E quase me comovo. Em que outro lugar, em que cidade outra, onde mais encontrar um letreiro paralelo? E o grafismo de rodapé? Quantas interrogações num só quadro?

“Prigo com os caés”. Uma aventura de alto risco ao pé da porta, este lugar. Olho em redor: não há “prigo”, não há “caés”, só tabuleta. Quando, para quê, com que ganas de certeza, que mão verteu aquele “é” nos “cães”? E “é” em cor diferente, “é” em azul porquê?

O Porto é inesperado pedido em casamento aberto à praça pública: “Precisa-se de senhora de 40 a 60 anos, livre e sem encargos familiares para casamento. Falar com o proprietário desta casa, n.º 57, 3.º andar – telef. 310335, das 8 às 10 horas, das 12 às 14 e das 17 às 21 h”. É a cidade do “Vende-se bixa”, do “Por favor deixem a entrada libre”, do “Coellho da China”, das “Tripas há moda do Porto”. Por falar em tripas, onde se esconde o segredo culinário das ditas? No agá do há?

Por linhas tortas, se escreve direito, no Porto. Como não gostar de uma cidade assim?

 

1 In revista Sábado n.º 92, 24 de Março de 1990 (com tópicas alterações de forma)

 

Posté par teodias à 07:12 - Commentaires [0] - Permalien [#]

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