repórter

textos de Augusto Baptista

04 mai 2007

Aparição

Durante a viagem, ele dormitou todo o tempo, enrolado no banco. Depois o transbordo, espera demorada num terreiro despido. Quando enfim a camioneta chegou ao destino, saiu com os ossos gelados, mãos recolhidas nos bolsos clementes.   Os poucos transeuntes com quem se cruzou eram silhuetas sem rosto, a tiritar sob a névoa que as respirações adensavam. Súbito, saia fina e blusa vaporosa, pés descobertos, uma mulher! Acalorada, quase despida. Uma jovem mulher, provavelmente vinda do frio. Segue-a um tipo lãzudo, avantajado,... [Lire la suite]
Posté par teodias à 14:04 - - Commentaires [0] - Permalien [#]

29 octobre 2006

Salvar o sorriso

Até nós chegaram alguns velhos quiosques do Porto. Refiro-me aos modelos antigos, feitos em madeira, como o que sobrevive, de boa saúde e no activo, no Largo de Mompilher. Só para o ver, falar com o senhor Vergílio Ferreira, guardião do espécime, é obrigatório visitar o lugar. No Largo da Ramadinha, mesmo ao lado da Churrascaria América, frente ao jardim de S. Lázaro, aí também existia um soberbo sobrevivente. Restaurado há poucos anos, levou sumiço. Na rotunda da Boavista, encerrado, degradado, agoniza um exemplar... [Lire la suite]
Posté par teodias à 17:03 - - Commentaires [0] - Permalien [#]
29 octobre 2006

Acasos do dia

Conheço um arrumador, diria até que dele sou amigo, tantos os meses que cruzamos presença e as boas tardes, numa das ruas do Porto. Pelo modo como os dias o definham, advinho-a nas malhas da droga. Esta semana, num dos nossos cruzamentos, no passeio havia altercação: um fulano, vermelhusco, trôpego nos gestos e na voz, queria varrer à estalada a mulher, a mãe da mulher, o mundo. Foi então que o meu amigo me olhou, baço, judicioso: — O álcool é fodido!   AB  In Notícias Magazine n.º 531 -... [Lire la suite]
Posté par teodias à 08:59 - - Commentaires [0] - Permalien [#]
28 octobre 2006

Parlez vous Français?

Junto ao n.º 147 da Praça da República, um pouco acima do nível do passeio e encravada na frontaria esbranquiçada do prédio, uma caixa clara. Na tampa, ruídos visuais garatujados a negro e, em discreto relevo sob uma chama estilizada: VANNE GAZ. Descaído à esquerda, em círculo: EN CAS DE DANGER ENFONCER et POUSSER LE BOUTON ROUGE. À senhora do 1.º andar, perguntámos o que era aquilo e o que lá estava escrito. «É a caixa do gás». Mais não sabia, nem lhe interessava: «No prédio só o 2.º e o 3.º é que usam. Eu tenho... [Lire la suite]
Posté par teodias à 22:57 - - Commentaires [0] - Permalien [#]
20 octobre 2006

Rotunda da Boavista

O motociclista escapou por um triz à dianteira do automóvel, e parou mais à frente, a protestar. Por destino ou para fugir à proximidade com a indignação, o automóvel guina à direita. Em perigo fico eu de repente, eu a atravessar a passadeira a coberto do verde. Não dá para escapar, correr para a frente, pular para trás. Estou encurralado no meio da estrada. De consciência lavada, no respeito das regras que aos peões se exigem, morrerei de pé. E encontro coragem para olhar nos olhos o instante, testemunhar a minha ... [Lire la suite]
Posté par teodias à 21:41 - - Commentaires [0] - Permalien [#]
20 octobre 2006

Sinfonia muda

O violino flutua entre o trânsito parado nos semáforos da Avenida Sidónio Pais, no Porto. O homem, pose musical, agita o arco do instrumento, mão à altura do queixo. E sorri, sorri muito, rente aos vidros e aos condutores, uns e outros fechados quase sempre. No sufoco dos motores a trabalhar, a música é uma cara a sorrir, a sorrir muito, violino no queixo; e uma mâo, gestos divididos entre a dádiva sinfónica e a súplica. Desponta o verde, os carros arrancam com fumarada, o tocador salta para a berma, a sorrir, a... [Lire la suite]
Posté par teodias à 13:39 - - Commentaires [0] - Permalien [#]
18 octobre 2006

Um domingo sem história

Dia agradável, embarco no comboio, rumo a Espinho. A viagem, no suburbano com partida de São Bento às 16h10, decorre sem percalços.   Em Espinho, inevitável, a marginal. Tarde de domingo a propor óculos de sol, variada oferta a roçar os pés dos transeuntes: formigueiro a passear para a frente e para trás. Na barafunda, ciclistas acrobáticos, alçados sobre o selim. E o mar, picado, a arremessar-se contra a costa; o mar a morder tão perto. Cerveja na esplanada, todo o mundo a olhar para longe.   ... [Lire la suite]
Posté par teodias à 22:42 - - Commentaires [0] - Permalien [#]