repórter

textos de Augusto Baptista

26 octobre 2006

Bobi, rua!

O cartaz afixado no expositor público questiona-me: «Já alguma vez foi abandonado?» A ilustrar a pergunta, a cara de um jovem quase de perfil, entre dedos um olho a espreitar, num desespero de luz. De luz, mas luz exterior. Luz a que falta o fulgor inimitável que vem de dentro, o alarme que ressurte nos olhos dos aflitos. Nos olhos dos abandonados. Nos olhos dos cães, nos olhos dos gatos a quem os donos nas férias dão pontapé. E que vadiam por aí essa luz de verdade, nos olhos. Tão os olhos dos meninos perdidos dos... [Lire la suite]
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26 octobre 2006

Triângulo amoroso

O caso nasceu assim: no âmbito do Porto 2001, foi decidido remodelar a zona do Campo dos Mártires da Pátria, junto à torre dos Clérigos. Vai dai, resolveram deslocar a estátua ali erigida ao bispo do Porto, ilustre figura: D. António Ferreira Gomes. «Queriam pô-lo mesmo em frente à nossa porta», queixa-se Custódio Ribeiro, técnico da "Farmácia Antiga da Porta do Olival". O gerente da vizinha "Confeitaria Muralhas", Aníbal Fonseca, queixa-se exactamente do mesmo. E começou o jogo do empurra: a ... [Lire la suite]
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25 octobre 2006

Contra os peões, marchar, marchar!

Os passeios são território do peão, convencionou-se. Mas, da teoria à prática, vai a distância do sossego ao sobressalto, da paz à guerra. Nos passeios alçam-se carros, motociclos, bocas de incêndio, camiões, bicicletas, postes, tabuletas, caixas eléctricas, placas, escavadoras, sinais de trânsito, cabinas telefónicas, depósitos de lixo, valas, parquímetros, andaimes, vidrões, sanitários, mecos, buracos, protecções, canos, tapumes, redes, candeeiros, cercas, calhaus. Calhaus, com vossa licença, até de cão. ... [Lire la suite]
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25 octobre 2006

Afectos descartáveis

Apareceu-me um dia destes à borda do passeio, mesmo em frente ao Hospital Militar do Porto. Lindas rodas brancas, pedais cromados, assento largo como dorso de pónei, e um volante-guiador — auréola negra por cima do manípulo das mudanças: um triciclo! Um triciclo como eu nunca tive, no lixo! Parei a remirar a peça, desejo de pedalar a corroer-me. E conjecturei sobre o que terá levado alguém a atirar ao lixo um brinquedo assim. Será que os pais... Será que os pais já lhe terão dado o carro?   AB  ... [Lire la suite]
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24 octobre 2006

2001: o fogo e as cinzas

Com o Porto capital europeia da cultura em 2001, mistério foi o porquê de entre tantos projectos, anunciadas reabilitações, parques de estacionamento, fogo de artifício, não ter havido um níquel que permitisse arrancar com a recuperação do edifício-sede da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Prestigiada casa de cultura, fundada em 1882, mau seria que continuasse a penar na decrepitude de um prédio cuja sombra se projecta sobre o fulgor da retemperada Praça financeira D. João I, na vizinhança da... [Lire la suite]
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24 octobre 2006

Comboio para Bragança

Por gosto, quando amigos meus, na transição dos anos 80/90, iam de avião para Bragança, apanhava eu o comboio em São Bento. Esperava-me um dia de viagem, curta demora, sempre achei, para o muito que ali se aprendia: a paisagem, as pessoas, as conversas, o comboio. Frequentemente viajava com gente da zona, que assim se ligava ao mundo; e com pequenos lavradores, ida e vinda entre casa e a courela, nas abas da linha. Com eles comia, bebia — recusa era desconsideração — ouvia-lhes a vida. À conversa na língua universal... [Lire la suite]
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21 octobre 2006

País real

Com as obras do Metro, a ligação ferroviária entre o Porto e a Póvoa do Varzim está interrompida. O percurso faz-se agora de camioneta, o oficialmente chamado Transporte Alternativo ao Modo Comboio. No feriado do dia de Corpo de Deus, quinta-feira 30 de Maio, cabia-me o agradável compromisso de debandar até perto de Vila do Conde, onde me esperava uma opípera merenda para festejar a comunhão do meu pequeno amigo Francisco — um privilégio que só abrange quem conhece. Às três e pouco da tarde, já eu estava de plantão ... [Lire la suite]
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20 octobre 2006

Rotunda da Boavista

O motociclista escapou por um triz à dianteira do automóvel, e parou mais à frente, a protestar. Por destino ou para fugir à proximidade com a indignação, o automóvel guina à direita. Em perigo fico eu de repente, eu a atravessar a passadeira a coberto do verde. Não dá para escapar, correr para a frente, pular para trás. Estou encurralado no meio da estrada. De consciência lavada, no respeito das regras que aos peões se exigem, morrerei de pé. E encontro coragem para olhar nos olhos o instante, testemunhar a minha ... [Lire la suite]
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20 octobre 2006

Sinfonia muda

O violino flutua entre o trânsito parado nos semáforos da Avenida Sidónio Pais, no Porto. O homem, pose musical, agita o arco do instrumento, mão à altura do queixo. E sorri, sorri muito, rente aos vidros e aos condutores, uns e outros fechados quase sempre. No sufoco dos motores a trabalhar, a música é uma cara a sorrir, a sorrir muito, violino no queixo; e uma mâo, gestos divididos entre a dádiva sinfónica e a súplica. Desponta o verde, os carros arrancam com fumarada, o tocador salta para a berma, a sorrir, a... [Lire la suite]
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19 octobre 2006

Bordados à mão

Colado à montra, a desafiar os olhos da rua, o letreiro: "Bordam-se lençóis à mão". Foquei a objectiva, feito à imagem. «Ó senhor, o que está a fazer?». Apontei para o papel. «Mas por que está a fazer isso, senhor?» Modelei discurso: hoje com tudo feito à máquina, é bom encontrar resistências manuais. Não desarmou, excitada e já à ilharga, a proprietária da loja: «E para que quer isso, senhor?» Assumi ser coleccionador de dizeres, de letreiros, coisas assim, que aquele era muito interessan... clic! Embraveceu.... [Lire la suite]
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