repórter

textos de Augusto Baptista

10 août 2007

Central

 Verão, Inverno, noite ou dia clareado, já elas andam a debicar o chão, entre os pés dos passageiros. A coxear, asa ferida, surpreendem migalhas, minúsculos nadas. Outros deserdados por aqui vagueiam. Alguns pedem esmola, alguns desistiram.

 

 É sempre assim a esta hora, aos sábados, na central de camionagem da cidade grande.

 

 Arribam prostitutas, homens embriagados, gente com embrulhos, malas, filhos. Pressa. Chegam mal dormidos, cansados uns dos outros, com a fixa ideia de partir. Pouco falam. Sussurram, dizem com os olhos, gestos, num quase silêncio.

 

 Punhal a rasgar os ouvidos, inesperado sobressalto, a instalação sonora golpeia no momento do costume: “Linha 1, passageiros para Fátima, Lisboa, e com destino a Beja, Évora, Faro…”. Muitos irão dali para mais longe, remotas paragens, lugares perdidos no mundo. E o autocarro, alvo, cromados a brilhar, resfolga numa destemperança de fumaça venenosa, persistente, esventrado por bagagens, passageiros a correr.

 

 Também ele e esta história breve partirão para Sul, camioneta em ruínas, destino divergente: umas poucas dezenas de quilómetros adiante. Quanta incomodidade, quanto tempo a penar ainda, em ilusório tempo de automóvel para todos.

   Destino já ali ou a perder de vista, não tarda a debandada. Na central ficam as pombas. As pombas e os miseráveis. Só eles habitam este chão de passagem. 

Augusto Baptista


Posté par teodias à 13:30 - Histórias de passagem - Commentaires [0] - Permalien [#]

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