repórter

textos de Augusto Baptista

17 juillet 2007

Dos grilos (1)


A caça ao grilo é uma especialidade venatória, um tipo de caça grossa, a seu
modo. Exige perícia, adestramento. Muita sensibilidade, delicadeza. E longo
trabalho de campo. Tal como para fera de África, esta valência cinegética
dispensa licença, ao contrário da banal caça à perdiz, ao coelho, ou da pesca
à linha no paredão.

A abordagem da peça faz-se ouvindo, com ventos contrários, pés a levitar. A
acção decorre no tempo quente, que, no frio, enrouquecidos, os grilos migram
para o ventre terrestre, em busca do calor do magna. E ressuscitam na época
canora.

Misteriosamente.

O canto é a suprema qualidade do espécime. Na Natureza abundam outros
cantores: ralos, cigarras, camponeses na ceifa. E, modalidade luminosa, os
pirilampos. Os grilos canoros têm dois rabos; com três tornam-se
ensimesmados, melancólicos, não cantam: chamam-lhes "grilas". Também
"pútegas" e outras aleivosias. Quando albinos, dizem-nos "grilos
brasileiros". Todas estas espécies escavam entre a erva uma toca, bastante
redonda, de pequeno calibre.

Para o exercício cinegético, utiliza-se uma haste vegetal, que, depenada das
derivações, se transforma na arma poética usada pelo caçador à porta da lura,
cócegas delicadas, tal qual mãos apaixonadas no ouvido da namorada. Até ao
êxito ou fracasso da abordagem. Como no amor.

Desafio de monta para qualquer um, aos sete anos de idade. Às vezes menos.

Augusto Baptista


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