repórter

textos de Augusto Baptista

24 octobre 2006

2001: o fogo e as cinzas

Com o Porto capital europeia da cultura em 2001, mistério foi o porquê de entre tantos projectos, anunciadas reabilitações, parques de estacionamento, fogo de artifício, não ter havido um níquel que permitisse arrancar com a recuperação do edifício-sede da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Prestigiada casa de cultura, fundada em 1882, mau seria que continuasse a penar na decrepitude de um prédio cuja sombra se projecta sobre o fulgor da retemperada Praça financeira D. João I, na vizinhança da... [Lire la suite]
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24 octobre 2006

Comboio para Bragança

Por gosto, quando amigos meus, na transição dos anos 80/90, iam de avião para Bragança, apanhava eu o comboio em São Bento. Esperava-me um dia de viagem, curta demora, sempre achei, para o muito que ali se aprendia: a paisagem, as pessoas, as conversas, o comboio. Frequentemente viajava com gente da zona, que assim se ligava ao mundo; e com pequenos lavradores, ida e vinda entre casa e a courela, nas abas da linha. Com eles comia, bebia — recusa era desconsideração — ouvia-lhes a vida. À conversa na língua universal... [Lire la suite]
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21 octobre 2006

País real

Com as obras do Metro, a ligação ferroviária entre o Porto e a Póvoa do Varzim está interrompida. O percurso faz-se agora de camioneta, o oficialmente chamado Transporte Alternativo ao Modo Comboio. No feriado do dia de Corpo de Deus, quinta-feira 30 de Maio, cabia-me o agradável compromisso de debandar até perto de Vila do Conde, onde me esperava uma opípera merenda para festejar a comunhão do meu pequeno amigo Francisco — um privilégio que só abrange quem conhece. Às três e pouco da tarde, já eu estava de plantão ... [Lire la suite]
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20 octobre 2006

Rotunda da Boavista

O motociclista escapou por um triz à dianteira do automóvel, e parou mais à frente, a protestar. Por destino ou para fugir à proximidade com a indignação, o automóvel guina à direita. Em perigo fico eu de repente, eu a atravessar a passadeira a coberto do verde. Não dá para escapar, correr para a frente, pular para trás. Estou encurralado no meio da estrada. De consciência lavada, no respeito das regras que aos peões se exigem, morrerei de pé. E encontro coragem para olhar nos olhos o instante, testemunhar a minha ... [Lire la suite]
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20 octobre 2006

Sinfonia muda

O violino flutua entre o trânsito parado nos semáforos da Avenida Sidónio Pais, no Porto. O homem, pose musical, agita o arco do instrumento, mão à altura do queixo. E sorri, sorri muito, rente aos vidros e aos condutores, uns e outros fechados quase sempre. No sufoco dos motores a trabalhar, a música é uma cara a sorrir, a sorrir muito, violino no queixo; e uma mâo, gestos divididos entre a dádiva sinfónica e a súplica. Desponta o verde, os carros arrancam com fumarada, o tocador salta para a berma, a sorrir, a... [Lire la suite]
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19 octobre 2006

Bordados à mão

Colado à montra, a desafiar os olhos da rua, o letreiro: "Bordam-se lençóis à mão". Foquei a objectiva, feito à imagem. «Ó senhor, o que está a fazer?». Apontei para o papel. «Mas por que está a fazer isso, senhor?» Modelei discurso: hoje com tudo feito à máquina, é bom encontrar resistências manuais. Não desarmou, excitada e já à ilharga, a proprietária da loja: «E para que quer isso, senhor?» Assumi ser coleccionador de dizeres, de letreiros, coisas assim, que aquele era muito interessan... clic! Embraveceu.... [Lire la suite]
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19 octobre 2006

A revelação dos passos

As pessoas estão a ficar cada vez mais egoístas. Faça o teste: saia à rua, trace um rumo, caminhe. Sem desvio. Verá meio mundo a esbarrar contra si. Tudo gente que anda a direito. Sem desvio.   Augusto Baptista  In Notícias Magazine de 1 de Set 2002
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18 octobre 2006

Um domingo sem história

Dia agradável, embarco no comboio, rumo a Espinho. A viagem, no suburbano com partida de São Bento às 16h10, decorre sem percalços.   Em Espinho, inevitável, a marginal. Tarde de domingo a propor óculos de sol, variada oferta a roçar os pés dos transeuntes: formigueiro a passear para a frente e para trás. Na barafunda, ciclistas acrobáticos, alçados sobre o selim. E o mar, picado, a arremessar-se contra a costa; o mar a morder tão perto. Cerveja na esplanada, todo o mundo a olhar para longe.   ... [Lire la suite]
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18 octobre 2006

Ah, Porto!

O Porto é uma cidade com um não sei quê de diferente e, na escrita, um espanto. Aqui se recebem lições de heterografia (e de muita humanidade). 1 Texto de Augusto Baptista   Casas, gente, ruas, trânsito: são as cidades. Nisso todas são iguais. O desafio está em encontrar as diferenças, desvendar as impressões digitais de cada uma, partir à descoberta, mesmo quando se fica. Sempre que posso perco-me no Porto. Entrego-me à cidade sem reservas. Devagarinho, sem destino nem norte, deixo-me escorregar ... [Lire la suite]
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17 octobre 2006

Um ás da sobrevivência

 De uma prole de 27, a fome e a doença dizimaram 20. Joaquim Lopes sobreviveu à hecatombe familiar e cresceu com esse jeito ganhador. Aos 12 anos era ardina de sucesso; aos 30, o lendário "Lopes dos jornais". E depois de transitar por dois empregos de fato e gravata, aos 60 abraçou a profissão de trintanário. Texto de Augusto Baptista   «As pessoas dizem que a farda me fica bem por eu ser muito alto, tipo inglês. Segundo vim a saber, um hotel requer à porta uma pessoa assim». Discurso... [Lire la suite]
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