repórter

textos de Augusto Baptista

11 octobre 2006

Garrano ameaçado!


José Leite, médico veterinário e o responsável pela defesa do cavalo Garrano, alerta: «Se morrerem os incentivos aos criadores, morre o Garrano!».

 

Garrano ameaçado! 1

 

Dos filmes de far west recordamos manadas de cavalos a galope, incendiando a pradaria. O fascínio, para sempre gravado na memória! Mas, para vivenciar um quadro assim, não é preciso ir ao cinema, não é preciso ir à América: bastará um pulo ao Minho, uma ida à serra, ao Parque Nacional da Peneda Gerês. Aí, com o respeito que nos devem merecer os espaços sagrados, descobriremos o galope selvagem dos garranos. Cruzaremos com estes nossos cúmplices de destino, desde o Vale do Côa; veremos velhos companheiros que connosco morreram em Alcácer Quibir, connosco partiram nas caravelas. Olhando-os, olhamo-nos. E, olhos neles — património tão importante como o Mosteiro dos Jerónimos, diz José Leite — calcularemos a tragédia que seria se os perdêssemos, se nos perdêssemos.

 

 

Texto Augusto Baptista


Chama-se... José António Matos Vieira Leite

Nasceu em... Rossas, Vieira do Minho, Braga, em 5 de Julho de 1955

É... médico veterinário, licenciado pela Universidade Técnica de Lisboa: Secretário Técnico do Livro Genealógico da Raça equina Garrana 

Trabalha... na Direcção Regional de Entre Douro e Minho, Ministério da Agricultura, Braga, e na Câmara Municipal de Vieira do Minho

Paixão maior... A defesa das raças autóctones, Garrano incluído: «Entendo esta actividade como um sacerdócio»

Paixão lateral... Coleccionar motos. «Eu explico: Braga foi sede de duas grandes fábricas, a Pachancho e a Motali. As unidades fecharam e quase não há registos desta actividade. Busco a preservação da memória. Por acréscimo, tornei-me coleccionador: tenho vinte modelos diferentes de Pachancho e de Motali»

A jóia da coroa... Motali de corrida com motor Alma, anos 50, exemplar único

 

 

Pergunta — Os seus dados curriculares suscitam uma questão prévia. No concreto, é Secretário Técnico do Livro Genealógico da Raça equina Garrana. Este compridíssimo cargo quer dizer o quê?

José Leite É a designação dada ao indivíduo que está à frente do melhoramento animal da raça. É um nome... o nome dado ao técnico que planifica a acção e dirige as intervenções, a nível nacional, para melhoria e defesa do Garrano, sob supervisão da Direcção-geral de Veterinária, do Serviço Nacional Coudélico e da Direcção Regional de Entre Douro e Minho, do Ministério da Agricultura.

 

Esclarecido este ponto prévio, começava por perguntar o que é o Garrano, que características tem este cavalo?

É um cavalo de pequeno porte (até 1,35 m de altura ao garrote — a base posterior do pescoço), castanho e com um perfil (cabeça vista de lado) recto ou côncavo. Estas são as três premissas principais para caracterizar o Garrano, para definir o padrão da raça. Por estes indicadores se percebe que é um cavalo muito diferente do Lusitano e do Sorraia, as nossas outras duas raças equinas.

 

À luz desta caracterização, quantos garranos temos em Portugal?

Não chega a mil animais.

 

Essa população como se distribui?

Por duas grandes zonas: o Parque Nacional da Peneda Gerês e a Serra da Cabreira. Estes são os dois núcleos principais, onde se encontram as maiores manadas.

 

Estes números e esta presença concentrada no Minho indiciam ameaça para a sobrevivência da raça ou, ao invés, não há que ter preocupações?

Houve um período de optimismo... Hoje, face às ameaças e à falta de sensibilização, há estudos que apontam para o perigo de extinção, dentro de um máximo de 10 anos.

 

Não será uma visão alarmista?

Infelizmente não. As perspectivas, a manter-se o quadro actual, são estas. E, convém dizer, a situação só não é ainda mais negra por obra das medidas comunitárias de defesa das raças autóctones.

 

Então o futuro que se desenha é de extrema gravidade...

E podem ainda ocorrer maiores adversidades. Por causa da BSE, há riscos de corte dos financiamentos comunitários. Para o programa de defesa do Garrano, e de outras raças autóctones, isso seria gravíssimo. Uma catástrofe.

 

Os dinheiros comunitários são assim tão importantes para defendermos o Garrano?

... o Garrano e as nossas outras raças... caprinos, bovinos... Por falta de sensibilidade e de medidas, já perdemos a raça algarvia de bovinos. Outras perdas estão iminentes. Para se perceber a importância dos apoios comunitários, no caso concreto do Garrano, temos de tomar em consideração que os criadores são pessoas de fracos recursos, com algumas cabeças na serra, a viver em liberdade, fazendo manada com animais de outros donos. Estes cavalos pastam em terrenos comunitários (os baldios) ou de particulares. Na serra há uma cultura ancestral de convívio, de coexistência. É a cooperação dos pobres.

 

Nestes tempos de feroz individualismo, essas suas serras parecem ilhas de utopia...

Mas Portugal é também isto que lhe digo. É também esta realidade pouco conhecida, esta matriz comunitária. E, volto ao Garrano, curiosamente foi graças a esta matriz — que não é sinónimo de Éden — que este cavalo se salvou.

 

Mas que se pode perder, se desaparecem os apoios comunitários...

Exactamente. Os universos poéticos estão ameaçados. É preciso um suprimento de vitaminas, para usar uma imagem médica. Veja a importância que tem, para famílias sem recursos, um apoio de 24 contos por animal: quatro animais, 96 contos por ano. Isto é uma espécie de abono que incentiva a criação e os criadores.

 

Fado nosso é sempre este abeirar do precipício, este caminhar no gume. Alcácer Quibir parece uma inevitabilidade em muitos domínios da nossa vida colectiva. Por falar em Alcácer Quibir, o Garrano terá lá estado?

Acompanhou-nos sempre, nos bons e nos maus momentos. Foi sempre um companheiro fiel, um cúmplice. Afonso Henriques montava um Garrano. Nas Descobertas, o Garrano partiu com as naus. Em Foz Côa, os nossos antepassados elegeram-no como centro das representações rupestres. Na I Guerra Mundial, com os nossos soldados, na frente, o Garrano lá estava.

 

De volta aos nossos dias, há bocado aludiu à serra como solar do Garrano, espaço privilegiado para a criação de grandes manadas, em liberdade. Mas há ainda os pequenos lavradores, com um ou outro exemplar, para transporte, para trabalho no campo...

É verdade, o pequeno agricultor é um pólo importante neste esforço. E começam também a aparecer centros hípicos, vocacionados para os cavalos da raça Garrana. A par da acção desenvolvida na serra, do controlo genético e do apuramento da raça, é muito importante a divulgação das qualidades do animal. É fundamental que haja um conhecimento alargado da valia e das aptidões deste nosso pequeno-grande cavalo, no trabalho agrícola, no transporte, no recreio...

 

Do conjunto de mil animais que atrás referiu, na serra estão muitos, estão poucos?

A maioria. A esmagadora maioria.

 

E a quantos donos correspondem estes mil garranos?

Sensivelmente a 300. Isto dá uma média de três animais por dono. Claro, a distribuição não é uniforme. Temos criadores com mais animais (oito, dez, no máximo), outros com menos.

 

Silvestre Lima, o pai da zootecnia nacional, considerava a corpatura do Garrano «consoante com o corpo da propriedade e a condição do cultivador» minhoto. Isto quer dizer o quê?

Que é um cavalo de minifúndio, animal pertença de gente pobre, com pasto pobre. Nestas condições, no acumular de milénios de privação, o Garrano foi-se modelando. Fez-se pequeno de estatura, mas, em contrapartida, especialmente resistente, vivo. Na serra, em manada, em liberdade, aprendeu a enfrentar o lobo, aprendeu a sobreviver.

 

Em tempos recuados, a presença garrana em Portugal estaria confinada à pequena área minhota e transmontana actual?

Isso remete-nos para a origem do Garrano. Este cavalo tem uma série de irmãos, em Espanha: o Cavalo Galego do Monte, o Asturcon, o Pottoka... Tem também irmãos na Grã-Bretanha: o Exmoor, o Shetland... Embora integrem raças distintas, todos apresentam alguns denominadores comuns. Tal como o Garrano, são todos animais de pequeno porte, muito resistentes, com os mesmos andamentos, ou seja, com o mesmo tipo de movimentos ao andar. Enfim, é o porte, é a morfologia do animal a determinar-lhe o andamento, a impor-lhe características específicas no andar. Ora isto tem muita importância em termos de utilização. Num Garrano, por exemplo, o cavaleiro vai embalado em pequenos movimentos laterais, cavalga e não se cansa. Os romanos, para as suas deslocações e campanhas, elegiam o Garrano.

 

Pelo que percebi, nessa garranofilia romana o factor resistência também terá pesado.

Sim, e a frugalidade alimentar, a inteligência do animal... Mas, o que eu queria dizer, para finalizar, é que, em tempos recuados, haveria um manto equino primordial, extenso, peninsular e não só, de onde irradiaram, se autonomizaram diversas raças. No caso do Garrano, essa mancha entre nós teria no passado uma expressão geográfica muito mais extensa, face à de hoje.

 

Há ecos da ida do Garrano nas caravelas. Isso remete para a admissibilidade da ocorrência de colónias equinas em destinos remotos. Há referências a tal respeito?

O Cavalo Pantaneiro do Brasil parece-nos ter origem no cavalo Garrano. Também é pequeno, também é sóbrio, também é robusto. E, em parte, faz o mesmo tipo de andamentos. Estamos a reunir esforços para concretizar um estudo genético do animal. Esse trabalho dará resposta científica ao assunto.

Depois, em várias ilhas, há referências a comunidades equinas, com animais morfologicamente muito semelhantes ao Garrano.

 

A somar a várias acusações — má índole, irrequietude, fome de liberdade — agora ao Garrano é-lhe assacada a responsabilidade pelos desastres de viação na serra da Cabreira. Na sua óptica o que se passa ali?

Segundo estou informado, no ano 2000, na estrada Braga-Chaves, zona de Vieira do Minho, houve 38 acidentes. Desses acidentes, só um envolveu um animal de raça Garrana. Estou seguro do que digo: temos a totalidade dos garranos identificada com marca a fogo e por via genética. Todos os outros acidentes envolveram cavalos de raça indeterminada. E isto porquê? O Garrano, em resultado da sobriedade, das características de que temos falado, tendencialmente não sai dos pastos tradicionais, das zonas mais altas. À estrada vêm os híbridos e os cavalos de outras raças. São os custos de uma prática errada: visando maximizar os ganhos com os animais para abate, alguns criadores, estranhos a Vieira do Minho, introduzem na serra garanhões de maior porte, de outras raças...

 

Sugere-me que está a pagar o justo pelo pecador. Mas, na verdade, os desastres deram-se...

Infelizmente. Para explicar estes desastres, temos de introduzir um outro factor, o Homem: não há planeamento para a serra da Cabreira. A Direcção Regional de Entre Douro e Minho, as câmaras municipais e as juntas de baldios de Vieira do Minho e de Cabeceiras de Basto ainda recentemente reuniram, visando elaborar um Plano Global para a serra. Mas isto é ainda um sonho, em cuja concretização acho que há todo o interesse em que participem também as Associações de Criadores.

 

Ainda dentro do designado factor humano, não haverá responsabilidades na condução?

Tem de haver lugares próprios para os homens das motos, dos jipes, das motos de 4 rodas se reunirem, se divertirem. A serra da Cabreira é dos legítimos proprietários dos terrenos e do Baldio, dirigido pela Junta de Compartes. Estes são os donos da serra. Quem vai para lá aos fins-de-semana tem de saber isto, tem de perceber que está num espaço natural, com fauna, flora, um equilíbrio...

 

Isso exige educação ambiental, nível cívico...

E, entre essas pessoas, de certo haverá quem tenha tudo isso. Mas, hoje, a situação é calamitosa. Abriram estradões para ralis, no meio dos montes... Aos fins-de-semana, são centenas de jipes, de motos... Já não é só o Garrano que atrapalha o tráfego, é a serra! E já houve um acidente mortal. Sou o primeiro a lamentar o desastre, a chocar-me com a perda de uma vida humana. Para mim, a vida humana é o mais importante. Mas, serenamente, não podemos culpar os garranos.

 

Então, a culpa é de quem?

Entre nós, a culpa morre sempre solteira. Mas é preciso dar nome às coisas. A culpa é do mau ordenamento e da ausência de um Plano Global para a Serra da Cabreira. Nada tenho contra os homens dos jipes e das motos. Sou um amante de uma e de outra coisa. E também de ralis. Agora, motos, ralis, jipes na serra, completamente sem regras, sem haver quem as faça cumprir?!

 

Num quadro assim as consequências poderão ser ainda mais gravosas...

Temos de optar: ou apontamos a Cabreira para desportos radicais e acabamos com as corças, os javalis, os garranos, com variadas espécies de flora protegida que só aí existem, com um equilíbrio económico, social, cultural que dura há gerações; ou vamos ordenar, disciplinar utilizações e utilizadores, educar e responsabilizar, fiscalizar e defender a serra. O ordenamento tem de ser feito com a Direcção Regional da Agricultura, com os municípios de Cabeceiras de Basto e de Vieira do Minho, com as juntas de Compartes, com os legítimos donos dos terrenos na serra, com as associações de criadores de garranos.

 

Do que se depreende, o ordenamento da serra é prioritário e urgente.

Se não se derem esses passos, acredito que haja animais a descer, que se continuem a verificar desastres graves e de todo o tipo, que o caos permaneça e se agudize. Fora de um quadro ordenado, actuações demagógicas e medidas drásticas só virão complicar, acirrar rancores entre criadores e os jipes e as motos... As consequências poderão ser gravíssimas.

 

Fico com a ideia de que também há um défice de diálogo...

Há défice de diálogo, de bom senso e de sensibilidade para este tipo de problemas. Vivemos numa sociedade consumista, de vertigem: importante é o dinheiro, o lucro, os carros, as estradas, as auto-estradas... Na Cabreira há um choque de valores, de culturas. Passam por ali muitos interesses.

 

Interesses que, curiosamente, parece não terem descoberto a riqueza que o Garrano e o equilíbrio ambiental podem gerar, para as populações, para a região, para o País.

O Turismo é a maior indústria espanhola. Eles, sem terem as nossas possibilidades, sem terem garranos com a valia dos nossos, com um efectivo abastardado, promovem curros, festas, iniciativas centradas nos cavalos, ganham milhões com o Turismo. Nós, elegemos o Garrano para ilustrar o cartaz das festas e romarias! E pouco mais. De resto, agride-se o habitat do animal e ainda o culpamos pelas consequências. Transformamos o Garrano em perigo público, em bode- expiatório do caos. Isto em zonas onde o elegemos como ícone!

O nosso país, e o Minho em particular, está a investir na recuperação de casas, solares, enfim está a procurar infra-estruturar-se para desenvolver o Agro-turismo, o Turismo de Habitação, o Turismo Rural e o de Montanha, com vista a, de um modo organizado, captar riqueza. Esse objectivo será inatingível se não cuidarmos do património ambiental, etnográfico, genético. E aqui, é incontornável, entra o Garrano. Haverá melhor cartaz, chamariz maior a seduzir os portugueses, os turistas de todo o Mundo, do que a visão ao vivo de uma manada garrana, livre, a correr na serra?

 

Muita gente haverá com sensibilidade, gente capaz de perceber o seu esforço, o esforço de todo um universo de agentes (cientistas, instituições, autarquias, criadores...) em defesa deste nosso pequeno-grande cavalo. Não faltarão vontades solidárias, em Portugal e no Mundo. Como seriam acolhidas as disponibilidades para estabelecer novos núcleos de criação?

Hoje já existem em Portugal alguns pequenos núcleos de criação, fora da região do Minho. Damos-lhes apoio técnico, estimamos este esforço. Novas vontades serão bem-vindas, se visarem projectos sérios e competentes.

 

1 O texto da entrevista com José Leite e o caixilho Dentro da Manada saíram publicados na revista Notícias Magazine n.º 460, 18 de Março de 2001.

 

 

 

Dentro da manada

 

Em 1993, fiz uma reportagem sobre garranos, publicada em Agosto, na "Notícias Magazine". Aqui se revisita esse texto, publicando-lhe um excerto: testemunho oportuno da nobreza deste animal, relato na primeira pessoa do frente-a-frente com o garanhão...

 

Quilómetros à volta, só eu e a manada: uma vintena de éguas garranas, umas prenhes, outras com poldros muito jovens. Bualhosa, pequena aldeia do concelho de Ponte de Lima, está longe, num baixio, na direcção em que o Sol declina. De resto, nem vestígio de gente ou de povoação. Estou aqui para ver, perceber e fotografar uma das raças de cavalos mais antigas e nobres, em todo o Mundo. E também das menos defendidas, estudadas e compreendidas. Hoje, desgraçadamente, em perigo de extinção.

No meio da serra, chão baldio, avanço devagar, rente ao prado. Os animais consentem a aproximação. Quase lhes toco. Só uma ou outra égua se afasta, sem pressa, olhos no pasto, dois ou três passos. Mordiscam a erva e os rebentos de tojo tenro, filhotes por perto. E não ligam ao clic! metálico dos disparos fotográficos. Em redor, quietude, espaço, liberdade.

De repente, vindo de trás, um relincho. Volto-me, em sobressalto. Surpresa: o prado está inundado de garranos. Aí uns cem, sei lá. Chegaram silenciosos, esgueirados entre as dobras da serra. Não dei por nada. À frente da manada, ágil e firme, o garanhão. Como corre! Hirto, nervoso, narinas abertas, cauda eriçada, galopa direito a mim! Em contra-luz, parece arder. Os olhos relampejam. Galopa, raios, cada vez mais perto, orelhas espetadas sobre a crineira negra. Galopa, a dentuça alva, os cascos a ferir a terra, sempre mais perto. Galopa, selvagem, livre, a toda a brida. E carrega sobre mim, inexorável: Estou perdido!

Mesmo em cima, desvia-se. E passa-me ao lado, rasante. Altivo, sem me ver. Rápido, em volteios e cabriolas, junta as éguas e os poldros ao grosso da manada. O Sol está baixo e não tarda a anoitecer.

 

Augusto Baptista

Posté par teodias à 11:12 - Commentaires [0] - Permalien [#]

Commentaires

Poster un commentaire