repórter

textos de Augusto Baptista

09 octobre 2006

Antônio Vieira


Antônio Vieira usa chapéu: na cabeça e no nome. O circunflexo é coisa de registo; o adereço capital é opção de artista, marca de criador de cordel de tipo novo — remoçado, diz —, que propõe pensar lógico, transformar. 

Texto de Augusto Baptista

 

Mordeu a pedra. À volta, todos, que poucos eram, suspensos no alvitre. Ouro! — assegurou Pedrão, garimpeiro velho. E no lugar donde esta veio, tem muitas! Logo abraços, implosão de alegria, júbilo amordaçado: para não despertar suspeita.

Um caso nascido de acasos. Primeiro a ida da pequena equipa de topografia para o cu de Judas, demarcar terrenos. Depois o mergulho à tardinha do agrimensor no rio, a pepita no fundo. A reluzir. Ouro! E no lugar donde esta veio, tem muitas!

Valeu a pena demandar Araguaína, contactar Pedrão, logo logo companheiro de agrimensores rendidos ao garimpo, ouro fácil, à superfície. Missão a enricar, no rio não tardou a companhia do dono da fazenda, dos donos das fazendas. E outros. Muitos. Mais, mais. Vindos cada vez de mais longe.

Nascia o garimpo na Serra Pelada!

Antônio Vieira conhece em detalhe a febre do ouro que fez arder o Brasil na década de 80: jornalistas, médicos, intelectuais, vaqueiros, burocratas, operários, deserdados, marginais, caldo humano a borbulhar na cratera, goelas esgalgadas a engolir a turba. Fez cordel:

 

Os barrancos desabavam

Só via gente morrendo

Ou ficavam soterrados

Ou escapavam fedendo

Alguns ficavam pra sempre

Traumatizados, doentes

Do garimpo maldizendo.

 

Aprendeu casos de gente que bamburrava eufórica, atraindo pistolagem. Soube de muito garimpeiro morto, por não vender pepita ao governo. Apurou números: «A produção acumulada de Serra Pelada até Setembro de 1984 foi da ordem de trinta e três toneladas de ouro.» Catou e guardou histórias, sem cair na tentação do garimpo: «O meu ouro era outro».

 

Várias classes de pessoas

O garimpo faz nascer

Prostitutas, pistoleiros

Quem rouba para viver

Garimpeiro bamburrava

O ladrão o tocaiava

Só sorte para não morrer!

 

No garimpo, a crueldade

É coisa de assustar

Não se tem dó de ninguém

Não adianta gritar

Triste de quem adoece

Se for pra morrer falece

Só Deus lhe pode salvar.

 

Me coma!

Antônio Vieira nasce na heróica e benemérita cidade de Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia, em 1949. Filho mais velho de uma prole de seis, cedo histórias, casos, dramas, lhe preenchem a vida.

Desde menino, na venda do pai, escuta narrativas. Conhece Ferrabrás, irmão de Floripes e filho de Balaão, pela voz de Donata, «uma senhora contadeira de histórias, branca, cabelo comprido, tipo uma portuguesa, magrinha». Terça armas ao lado de Oliveiros e Roldão, às ordens de Carlos Magno. Se arrepia com «caso de bichos, histórias mal assombradas, fantasmas e reis».

Na escola, «todo o mundo contava coisas, como prática normal, recreativa. Histórias decoradas, de lobisomem e tal, às vezes em verso». Entre o jantar e a deita, «era jogar pião, fabricar carrinho, correr picula, que é o procura-procura», jogo das escondidas, como em Portugal se diz.

Crescendo, aos 13 anos aprende violão. E histórias da História. Pasma com as pregações de António Conselheiro em 1889, «o Bom Jesus prometendo montanhas de cuscus e rios de leite para todos». Um caso que poucos conhecem, lamenta: «Conselheiro e a sua gente se instalaram numa fazenda abandonada na região que hoje se chama Monte Santo, fundaram a povoação de Canudos. Os fazendeiros, sem mão-de-obra, pressionaram as autoridades para acabar com aquilo». Os ataques foram todos repelidos. «Até que, após três anos de guerra, o Ministro do Exército à frente das tropas arrasou Canudos — 20 mil mortos: homens, mulheres e crianças».

Na vida, aprende Feliça, «a prostituta que ensinou uma geração inteira»:

 

O rapaz vinha de longe

Para comer a negona

Um saía outro entrava

Ela deitada, abertona

Os meninos de família

Na porta, faziam fila

E ela dizendo: — Me coma!

 

Não era de meretrício

Morava numa casinha

Atrás de uma avenida

Porta de frente pra linha

Tinha o olhar meloso

Um trejeito apetitoso

Era do tipo galinha

 

Repara em Popó do Maculelê «guiando trole puxado a burro, que trazia as bagagens dos passageiros do cais do porto (no Conde) para o centro da cidade». Retém os ecos da fantástica epopeia do capoeirista Besouro, morto mas nunca vencido, «nome manchado proposital e preconceituosamente pela tarja da marginalidade».

Atreve-se nas primeiras quadras, caligrafia indecisa em papel de embrulho, relato do caso de um enfermeiro, que — diariamente e por mais dum ano — vê correr para aplicar injecção numa moça, «doente com uma gripe, muito bonita». Ufano, mostra a criação aos catraios mais velhos: «Incinere isso, rapaz! Você é maluco?!».

Se Antônio tendia para a malandragem nas letras, também Santo Amaro fervia de samango, mariola «a emprenhar vizinha». E outros casos. Conta que na cidade havia (e há) duas bandas de música, rivais: a Lira (uniforme cinza e vermelho) e a Apolo (uniforme caqui — verde claro — e vermelho). «Pois uma vez, preso um sujeito sem qualquer razão, o delegado queria dar surra nele. À falta de motivação lembrou-se das bandas»:

— Me diga, você torce por qual banda?

— Doutor, eu gosto das duas.

— Um homem tem de se decidir!

— Gosto da Lira...

— Tragam o chicote cinza! — ordenou o delegado. «E meteram o chicote cinza no meio da sova».

— Doutor, eu torço por Apolo!

— Tragam o chicote caqui!

— Eu torço pelas duas, doutor!

— Juntem os dois!

Caso verídico? «Eu já peguei o bonde andando» — assegura. «Isto foi-me contado pela minha família». O real e a ficção: dois chicotes. Neste entrosado, António se fez homem, temperou ideias, descobriu o lado que lhe estava reservado na barricada social.

 

Semear consciência

Um dia, a vida empurra-o para fora de Santo Amaro, joga-o para o imenso Brasil. Anos de andanças, mais de vinte: Feira de Santana, Goiás, Brazília, Imperatriz do Maranhão... E, enfim, regresso recente a chão baiano: Salvador.

Nesta peregrinação, estuda, serve o exército, tira curso técnico de agro-pecuária, constitui família. Nos quadros do Ministério da Agricultura, entre outros afazeres, «acompanhou o assentamento de populações nas zonas rurais». Explica: No tempo do governo militar, houve uma reforma agrária, «de cima para baixo, de Brazília para o campo». Foram distribuídas terras, «fazendeiros, os antigos posseiros, a disputarem solo fértil, nas margens dos rios; nos outros lugares ficava gente sem terra, vinda da cidade».

O António integrava uma equipa técnica «de vistoria e preenchimento de laudos das propriedades, que acompanhava a subdivisão da terra e o assentamento das pessoas». O epicentro do sismo! «Nesse processo se geram corrupções, invasões, pistolagem, um camarada ocupa uma terra, tem direito à vizinha, aí manda assassinar o cidadão para poder...». A selva! Também geografia privilegiada para caçar histórias, coleccionar casos, conhecer os homens, a sociedade: «A história dos menos favorecidos sempre me chamou a atenção. Sempre quis compreender o porquê das diferenças sociais».

A terra e o gado, a causa agrícola, abrem-lhe horizontes, mostram-lhe o Brasil social, visto de baixo. Desvendam-lhe espaços. Extasia diante de Alto Paraíso, «uma das regiões mais lindas do mundo». Conhece Pedro Afonso, cidade entre os rios Sono e Tocantins, a sua fauna: «Dá peixe de 100 quilos, o Filhote, por exemplo, peixe de couro». Ronda Serra Pelada, o garimpo. Trabalha na Transamazónica «estrada que pega de Brazília, em Goiás, atravessa Tocantins, Pará, Amazonas».

Por onde passa, aprende: «Enquanto os outros iam para um simples serviço, eu fazia pesquisa sócio-económica por minha conta. Fui anotando, ouvindo termos, conceitos, sacando comportamentos». Contacta populações índias, interpela gente andarilha em busca de uma vida melhor.

«Autómato no emprego, autónomo na parte literária», ganha lastro cultural, colhe experiência humana. E decide semear consciência. Opta pelo cordel: «Por ser veículo ideal para transmitir mensagens, popularizar a cultura, deselitizar o saber». Denunciar: «No Maranhão, o minério de ferro passa em composições quilométricas puxadas por um trem e o povo não sabe a origem nem o destino daquilo. Fica tipo espectador de quadra de ténis. O interesse da minha literatura é difundir informações, ainda que diluídas em água com açucar, só a manchete, mas que o povo saiba que o minério está a ser tirado de Carajás, um dos grandes celeiros de ferro do mundo, para o Japão. Se alguém quiser saber mais, que vá buscar».

Demora-se em referências à incontornável superficialidade do cordel, embora momento de possíveis indagações ulteriores: «O que escrevo no cordel é uma sinalização para o aprofundamento. Quem quiser permanecer só no conhecimento do cordel, tem um princípio necessário para o consumo. Aquele que quiser aprofundar — a posição social dos protagonistas, o ambiente... — pode fazê-lo».

No cordel "Se a ferrovia traz progresso, porquê o trem parou?" freme a indignação: «Nós temos 20 mil quilómetros de estrada de ferro e de repente sucatearam, arruinaram estações, arrancaram os trilhos em algumas cidades, fizeram avenidas. Porquê, se estão fazendo o metro em Salvador?». Logo a resposta: «O comboio foi desmantelado prepositadamente em função da Shell, em função dos Bush da vida. E o Brasil aceitou isso».

 

O cordel ao poder!

Outras vocações atribui Antônio ao cordel. Ao seu cordel. Rodeia o assunto, dá voltas, conta a história do cientista que chamou um barqueiro para atravessar um rio. Na viagem, para avaliar o grau de conhecimentos do remador, o cientista multiplicou-se em perguntas: Sabe Matemática? Biologia? Astrofísica? Termodinânima?

A cada pergunta, ouviu um não de resposta. E, para cada não, o sábio judiciava:

— Pois é, perdeu um percentual importante da sua vida.

Às tantas, arma-se uma tempestade, o barqueiro inquire:

— Sabe nadar, doutor? Não! Então, vai perder a vida toda já!

«Nessa hora — adianta Antônio — não interessa o nome da capital da Hungria, ou da Rússia. O importante é saber nadar!». Remata: «Com o cordel o que queremos é mostrar esta realidade e ensinar a nadar, a raciocinar. Propor cidadania, integrar. Daí a razão do cordel remoçado. O cordel tradicional ele é lúdico, engraçado, mas neste ponto é inóquo. Não influi nem contribui. Nas entrelinhas de nossos versos, a gente coloca essa questão da necessidade de pensar. Pensar lógico».

Desempenho que atribui ao cordel é também salvar do esquecimento «os momentos, gestos, os mil modos como o povo, as populações e seus heróis intervieram no curso dos acontecimentos e na formação do Brasil». A propósito assinala que, na História oficial, os protagonistas, os agentes das transformações são os generais. E o povo? «Um general não ganha uma guerra sozinho. Também, paralelamente às macro-acções, uma multidão de actos influencia sobremaneira o processo». Daí a urgência, através do cordel, «de cantar o povo e a actuação popular, repor verdade na avaliação histórica».

A par da exaltação do herói colectivo, «função do poeta é o resgate, o evidenciamento de certas acções e indivíduos, como Besouro de Santo Amaro, que reagiu com pernada, valentia, à proibição oficial de jogar capoeira. E lembrar grandes nomes, exemplos que o povo precisa conhecer. Multiplicar os Albert Schweitzer da vida, as Madres Terezas de Calcutá».

Perante tanta tarefa, tanta necessidade de multiplicação, de milagre, tempero, apetece perguntar, sem lirismo, o que pode a Donata, o Popó do Maculelê, a Feliça, Lâmpião, Besouro, o que podem eles juntos na inversão do curso das coisas, agregar, humanizar? O que pode o cordel na transformação do mundo?

«Veja bem» — diz-me Antônio, no seu jeito pausado e sereno de contar história. «Veja bem, neste caso, o cordel seria aquele passarinho que estava com o bico pegando água para apagar o incêndio. E os outros animais da floresta lhe disseram: Então você quer apagar o fogo assim?! E o passarinho, sem interromper o trabalho: Estou fazendo a minha parte!» •

 


In cenaberta n.º 3 – Dezembro 2004


Contacto: antoniovieira.cordel@ig.com.br

 

 

 

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