repórter

textos de Augusto Baptista

09 octobre 2006

Entrevista com Júlia Cota


(publicada na revista Notícias Magazine n.º 466, 29 de Abril de 2001)

Chama-se...  o meu nome direito é Júlia da Rocha Fernandes de Sousa, mas, conhecida pelo artesanato, sou Júlia Côta

Nasceu... em 1935, no dia 26 de Dezembro, no lugar de Souto de Oleiros, Galegos de  Santa Maria, Barcelos

Obsessão... a mesa de trabalho, o barro

Devaneio maior... sou-lhe sincera, do que eu gosto mesmo é de bacalhau, da badaninha do bacalhau com batatas e molho cozido (azeite, meia folha de loureiro, pimenta, cebola — só estaladinha, não se deixa queimar — um pouco de vinagre e água de cozer o bacalhau, só para dar aquele gostinho)

Pavor... se um dia ganho um panariz num dedo, eu morro

 

Júlia Côta (nome de guerra): minhota, sete filhos, sexagenária, analfabeta, barrista genial

 

Uma artista

 
Do barro Deus fez o homem, diz o Génesis. Do barro, Júlia Côta faz homens, mulheres, deuses, diabos, santos, músicos, cavaleiros, chocas, galos, jardins de mijões... figurado sortido, como ela diz. Um universo de entes fantásticos que lhe assalta a cabeça e, com golpes de mágica e maneio de mãos, ela solta no mundo. Mulher de emoções, ri, chora, nesta conversa. Diz-nos da vida, desvenda segredos cerâmicos. E sofre: com saudade da galinha que vendeu um dia ao museu, e por não ver na família quem lhe herde a arte, quem perpetue em barro o nome dos Côtos.

 

Texto de Augusto Baptista

 

Pergunta — Toda a gente lhe chama Côta, Júlia Côta. De onde lhe veio este nome de guerra?

Júlia Cota Veio da minha mãe. Chamavam-lhe Rosa Côta e eu Júlia Côta fiquei.

 

Então herdou esse nome da mãe?

É mais antigo, a minha falecida mãe é que dizia. Ó mãe porque é que lhe chamam Rosa Côta? Porqu'olha, o meu avô (claro, o bisavô meu era o avô dela), porque o meu avô tinha umas pontinhas dos dedos tiradas, pequeninas, que mal se percebiam... E depois começaram a chamar-lhe o Côto. A família da minha mãe é tudo Côtos.

 

O bisavô chamava-se?

Côto! O resto não sei... O meu avô era Domingos João Côto. Foi ele quem fez o primeiro galo que existiu em Barcelos. E a seguir foram os meus pais: Eduardo Fernandes de Sousa e Rosa Faria da Rocha. O meu pai e a minha mãe trabalhavam os dois. O meu pai fazia o cabaço do galo...

 

O cabaço do galo?

O cabaço do galo é o corpo do galo. Fazia à roda, com as mãos, não é?! A seguir fazia o pé, a base, e o pescoço. Depois, eu e a minha falecida mãe é que fazíamos tudo à mão: a crista, os pelingranos, os olhos, os bicos, tudo...

 

Os pelin...?

Os pelingranos, chamamos nós os pelingranos, que é abaixo do bico. Abaixo do bico é os pelingranos dos galos. Deixávamos esse corpo do galo endurecer, depois é que podíamos pôr as asas. Depois de ter as asas do galo, deixávamos enxugar, e botávamos as flores em alto relevo, à mão.

 

Então, desde pequena começou logo trabalhar no barro?

Éramos oito. A minha mãe, coitadinha, pôs-nos a servir. E naquelas horinhas que às vezes nós não podíamos estar a servir, vínhamos para casa e toca a trabalhar, a fazer o tal figurado miúdo...

 

O figurado miúdo?

Era assim de palminho, como os músicos. E margaridas, meninas de roda, cavalos, tudo sortido. Eu ainda me lembro de muitas peças. Nós fazíamos um cento de figurado numa semana, cozíamos, pintávamos, para ir vender na quinta-feira a Barcelos. Para quê? Para trazer meio quarto de feijões, uma arroba de batatas, couves...

 

Então e a escola?

Nada, nada. Estou certa da minha falecida mãe nos mandar com uma saquinha de pano, com uma louzinha dentro... Hoje não tem lugar, vamos embora! Hoje, não tem lugar! Nunca mais tornei. E, como eu, os meus irmãos todos.

 

Então não conhece as letras?

Ai sim que conheço. Conheço o 3, o 4, o 5, o 2... E se for preciso fazer um telefonema, eu faço.

 

E escrever? E ler?

Não senhor... Nada.

 

Mas assina as suas peças...

Assino. Tenho uma senhora que me ensinou a fazer Júlia Côta. Mal feito, mas vou fazendo. E tenho um senhor do Porto que me ofereceu uns carimbos, que era para eu pôr na louça. E ele disse-me Ó dona Júlia, vou-lhe oferecer uns carimbos. Mas para mim nunca me ponha os carimbos... Nunca mos ponha! Faça-me com a sua letra mal feita.

 

Mas então, era pequenina e foi servir. Foi servir para onde?

Uma vez fui servir para Famalicão. Eu estava numa freguesia, chamavam-lhe a freguesia de Cabeçudos. Os amos eram lavradores, gostavam muito de mim. Eu punha tudo arrumadinho, sabia cozinhar bem.

 

Esteve lá muito tempo?

Para aí seis meses. Um dia qualquer, usávamos assim uns lencinhos na cabeça de ir à missa, um dia qualquer, pus o lencinho no chão, peguei nos meus farrapinhos, pus tudo atado nas quatro pontas do lenço, corri até Famalicão. De Cabeçudos a pé até Famalicão. Eu sabia que a minha falecida sogra estava lá a vender louça, que ainda não era minha sogra, nem pensava nisso, quando cheguei à beira dela Ó tia Felismina, eu quero m'ir embora, eu quero ir para a minha mãe, nem que passe fome. Ó tia Felismina...

 

Foi servir para mais algum lugar?

Fui aqui uma vez para S. Vicente de Areias, só estive lá três dias. Fiz como o Diabo.

 

Como o Diabo?

Diz-se que o Diabo só serviu três dias, eu fiz igual. A minha mãe dizia assim, não queres mais servir, não vás.

 

Com que idade é que isso se passou?

Tinha dez, doze anos, não tinha mais.

 

E foi nessa altura que foi trabalhar com os seus pais?

Eu já trabalhava com os meus pais, e continuei, não é?! Fazia assim umas choquinhas à mão, o assobio, tudo que era miudinho, figurado. Depois começámos a pintar. A minha mãe fazia e nós pintávamos. E assim foi.

 

Nós, quem?

Eu e as minhas irmãs.

 

Mas as irmãs não seguiram a arte.

Não senhora. Nenhuma delas. Mas sabiam pintar.

 

Aos 22 anos casou-se.

Eu fui quase das últimas a casar-me. Casei-me e fui trabalhar para a fábrica D. Infante Henriques. Ia buscar um cesto de louça para pintar em casa e depois passava todos os dias à porta dos meus pais. Levava um cesto à cabeça e trazia outro. Um dia qualquer a minha mãe disse-me Ó rapariga tu sempre para baixo e para cima até me estás a afligir, vem trabalhar com a gente! Um fim-de-semana, ela tinha muitos músicos para aparelhar, vim para baixo e comecei a aparelhar os músicos. O meu falecido pai viu que eu maneei bem as mãos e disse-me Poderias trabalhar com nós, pagamos-te à hora. A quinze tostões à hora, veja lá! Já ganhava mais do que ganhava para a fábrica. Comecei a aparelhar os músicos, dos músicos comecei a aparelhar outras coisas, as juntinhas de bois, figurado sortido...

 

Logo nos primeiros anos de casada as responsabilidades familiares cresceram muito, vieram os filhos...

Comecei a ter os filhos, atrás de um, atrás de outro, tenho sete, graças a Deus. Tenho-os todos vivinhos. O meu falecido pai fez-me um carroço de quatro rodas com as caixas do sabão de rosa antigo. Trabalhava, dava peito aos filhos... Fiz uma travesseirinha de moinha para o fundo do carroço e, depois de lhes encher a barriguinha, deitava-os — sempre com o pé a tanger o carroço, sempre a trabalhar com as mãos. Porque eu não queria que o meu pai...

 

O pai era duro, é isso?

O meu pai era muito boa pessoa, mas era um bocadinho importuno... parece que tudo lhe tiravam e nada lhe roubavam. E eu não gostava muito daquela atitude dele. Se eu fosse lá atrasada cinco ou dez minutos, o que eu ouvia...

 

Com mais ou menos problemas, lá acabou por aprender...

É das tais coisas, a necessidade obrigou-me. Depois, olhe, a minha mãe começou-me a dar quinze tostões, depois via que eu sabia bem, começou-me a dobrar, três escudos. E de três escudos começaram-me a dar sociedade. Eram duas partes para eles e uma para mim. Isto já depois de casada. E foi assim. Comecei a fazer com eles ao jornal, do jornal comecei a fazer a sociedade, e depois comecei eu sozinha.

 

Trabalha sozinha agora, mas a técnica é a mesma que aprendeu com os seus pais?

Eu trabalho como a minha mãe trabalhava com o meu pai. Para as peças maiores, tenho um homem que me faz assim o corpo à roda, sabe, assim à sorte, e eu agora venho para aqui, ponho o barro, faço aquilo que me vem à ideia. Eu é que decoro tudo. Mas há muitas coisas que não é preciso ir às mãos do oleiro. Muitas. Olhe, é as juntas dos bois, é os músicos, é o jardim dos mijões, é as mataças do porco, é os galos, é os coretos da música, é as bonecas miudinhas, é os presépios de toda a qualidade. Isso não tem nada a ver com a roda de oleiro.

 

Onde vai buscar a ideia para fazer esses bonecos?

Olhe, à cabeça. Sento-me ali, ponho uma péla de barro à minha frente, e faço. Tenho ali cinco ou seis peças. Não é nenhuma igual à outra. Ora veja lá. Tem a ver uma com a outra? Não tem! É a minha cabeça. Não copio nada, por nada. Nunca copiei. Eu faço coisas que a minha mãe nunca fez. Coisas que me vêm à ideia. Mas a minha mãe também era uma grande artistona, a minha mãe. Ela nunca me disse, ó filha, vais fazer desta maneira ou daquela. Eu é que tinha de fazer.

 

Explique-me uma coisa, como é que uma mulher religiosa... É religiosa, não é?

Graças a Deus, sempre fui e sou, não há quem me vire. Hei-de ir com a doutrina que os meus pais me ensinaram. Já esteve aqui muita gente que veio ver se me virava, pessoas da Jeová e tudo, não vou, é escusado.

 

Então explique-me, onde vai uma mulher religiosa buscar inspiração para fazer o Diabo?

Olhe, vou-lhe já dizer como é que eu o fiz mesmo. Mas isso foi verdade. Eu ainda era moça, e dantes as moças iam assim às festas... Nós, aqui à beira de Barcelos, temos uma freguesia que se chama S. Bento da Várzea. E nós íamos lá. E nesse S. Bento da Várzea, ao lado tem uma capelinha. E nessa capelinha o que é que tinha? O Diabo! Eles é que diziam que era o Diabo, por ter uns cornos, porque eu nunca o vi e oxalá nunca o veja. Eu vi aquele Diabo lá, só que parecia de bronze, pintado de preto. E eu, ao primeiro, comecei a pintar também assim de preto, mas achava-o tão feio, tão feio... e não vendia bem. Só que ele tinha umas asas atrás, eu as asas não pus. Pus-lhe a forquilha na mão, como vossemecê vê ali, e comecei a pintá-lo de vermelho, os olhos de branco, as bocas encarnadinhas, a forquilha de prata e, olhe, deu-me sucesso. De preto nunca mais pintei nenhum. Foi desde aí que eu comecei a fazer o Diabo, por ver aquele em São Bento. Veja lá! Agora ele tem dois cornos, não é?! E eu boto-lhe dois, mas, às vezes, lembro-me de botar três, para dizer que é o chefe dos que só têm dois. Está a compreender?!

 

Os seus diabos às vezes têm dente de ouro.

Eu às vezes cismo, sabe, boto-lhe assim os dentes todos grandes... e um de ouro. Porquê? Eu falava com pessoas da alta, pessoas bem se via que podiam, pessoas já de idade, eu era novita e punha-me assim a ver Porque é que aquele homem tem um dente tão amarelinho? — perguntava aos meus pais. É dente d'ouro, rapariga! E às vezes lembrava-me disso e punha também. Olhe que ideia!

 

E têm umas barbichas, os seus diabos.

É! E uma forquilha, que é para enfornar as pessoas. E faço também diabas...

 

E santos... Ali aquelas figuras, como lhes chama?

Eu chamo-lhes bonecos sortidos. Aquele atrás é um S. Joãozinho, aqui é um S. Pedro, aquele é um migalheiro porque tem a coisa atrás.

 

Um boneco destes demora-lhe muito tempo a fazer?

Eu sou fácil. Sou capaz de aparelhar vários, numa tarde.

 

Tem acolá uma boneca muito arranjada, mas com umas grandes orelhas, para cima...

Pois tem... Pus-lhe as orelhas de um gato, vá lá.

 

Mas onde se viu uma boneca tão linda com as orelhas de um gato?!

Mas você que quer?! Dá-me pra fazer assim. Sou eu que tenho essa imaginação.

 

Acolá a secar tem mais bonecos. São o quê?

Eu sei lá... São bichos sortidos... Eram porcos e depois eu cismei. Fiz-lhe aquelas caretas.

 

O barro de onde lhe vem?

Olhe, o barro, no meu princípio, quando comecei a trabalhar, vinha de Alvarães. E tinha de vir outro de Monfores, um barro preto, especial. Mas não se podia trabalhar só com o preto, porque é gordo de mais. E o outro é magrinho de mais, parte. Não se podiam fazer, por exemplo, os instrumentos dos músicos, os corninhos dos bois, os braços nas bonecas. Mais tarde, aqui o Oliveira, da fábrica Tulipa, comprava barro aos camiões e como eu gastava pouco ele arranjava um carro. Vinha de lá quase prontinho, tudo trabalhado por ele. Agora, olhe, vejo-me quilhada...

 

Mas porquê?

Para mascotá-lo é ruim.

 

Mascotar?

Mascotar! É com o mascoto, como esses homens que trabalham na estrada, é pôr o barro em ponto de eu poder trabalhar com ele. É quase como fazer um bolo de comer: para ser fofinho tem de ser bem mexido. O barro, se for mal vergado, nem a louça me sai, nem eu gosto de trabalhar com ele.

 

Depois do barro bem vergado, na mesa faz as peças, os bonecos. Que ferramentas usa?

Palheta, faquinha, furador, olheiro... e mais coisas. Estes dois (indicador e polegar da mão direita) valem dinheiro!

 

Faz as peças e depois?

Precisam de secar. A louça tem de ser enfornada seca, para não estourar. E tem de ser cozida por pessoas que lhes doa, aquecer lentamente, com paciência. Uma pessoa para aquecer o forno tem de ser preguiçosa.

 

O forno é especial?

É dos antigos, a lenha. Eu tinha um senhor espanhol que me oferecia um forno eléctrico, ou a gás, como eu quisesse escolher, mas queria que eu trabalhasse só para ele. Mas isso eu disse que não fazia. Ainda o meu falecido homem era vivo...

 

Espanhol, disse?

Da Galiza. Que me dava o comer, bacalhau... O meu falecido homem disse-me para eu lhe dizer que não concordava: nós éramos portugueses, não éramos espanhóis. Então vinha uma pessoa por outra aqui a casa e não podíamos vender?! Não senhor!

 

Enfornar a louça tem alguma ciência?

Tem de ser uma peça de cada vez, até metade do forno. Ponho umas peças grandes em baixo, a seguir vou pondo as pequeninas a arrolhar e tal, até que aquilo fique bem direitinho. Está metade enfornada, cubro com telha, tijolo a tijolo. E depois enforno a outra metade, tapo a porta do forno com um tijolo burro. E, para tapar as frinchas que ficam, amasso um bocadinho de saibro e tapo, que é para o lume não sair.

 

E a lenha onde entra?

A lenha é por baixo, na canelha do forno.

 

Quando começa a enfornar, as peças onde assentam?

Na grade de tijolo. Tem um buraquinho ao meio que é para o lume entrar e espalhar-se no forno.

 

Ao todo quantas horas são de cozedura?

Para aí umas sete, oito horas.

 

Se bem percebi, a louça tem de cozer à volta de sete horas, depois tem de apagar o forno e deixar arrefecer. Isto num dia. No dia seguinte, desenforna a louça. E depois?

Depois tenho de pintar. Eu vou pintar hoje dez bonecas, uma hipótese. Eu não as acabo todas no mesmo dia. Não consigo porque uma tinta puxa a outra. Portanto, não posso dar os acabamentos sem a tinta estar seca. A primeira coisa que eu dou é o encarnado: a cor da nossa cara, pronto. Dou-lhe o encarnado, depois dou-lhe os olhos, os brancos, depois dou-lhe os pretos, dou-lhe as bocas, tudo, não é?! E depois é que começo a dar-lhe os acabamentos. Primeiro o branco, o amarelo, cor-de-rosa, vermelho, azul, todas as cores. A última coisa que eu lhe dou é os fundos, por baixo. E os sapatinhos de preto ou de castanho, como eu entender. Ainda leva o seu tempo.

 

E que tipo de tinta usa?

A tinta é esmalte. Dantes, comprava-se resina e derretíamos. A minha falecida mãe comprava secante e, quando a resina estivesse derretida, botava-se o secante, que era para fazer o verniz. Agora vêm as tintas já diluídas dentro das latas. Dantes aquelas tintas punham-se feias, estas morrem assim.

 

Pinta a pincel?

A pincelinho, tudo.

 

Depois da peça feita, ainda tem a venda. É mais um trabalho...

Eu vendo muito bem. Não precisava de sair daqui para as feiras. Mas eu às vezes até vou para espalhar um bocadinho... Sabe onde eu gostava de ir? Ao Porto, onde era o Mercado Ferreira Borges. Abençoado doutor que nos apoiou e nos ajudou em tudo. Era o dr. Teixeira de Sousa. Abençoado seja ele. Fui ao Palácio de Cristal há dois anos, não vendi nada, apanhei lá um frio, parece que ainda tenho o frio nas costas, um frio de morrer, e por fim tive de pagar trinta e cinco contos: não vou, a pagar não vou a lado nenhum!

 

Tem ideia de quantos bonecos já fez até hoje?

Não tem conta. Tem graça que eu às vezes vou aqui ao Museu de Barcelos, e tenho lá peças que nunca mais as fiz. Eu olho e até me começo a rir: eu fiz aquilo?! Na maré lembro-me, mas depois torno-me a esquecer.

 

E não tem pena de vender as peças, de ficar sem elas?

Não, não tenho. E vou-lhe dizer porquê. Olhe, eu ponho-me assim a pensar: eu preciso do dinheiro, eu não tenho quem mo ganhe, tenho de o ganhar eu. Preciso de fazer qualquer coisa na casa, tenho de pôr o dinheiro, porque prometeram-me tudo, faltaram-me com tudo...

 

Mas quem?!

E eu saber dizer os nomes... Essas pessoas disto tudo, que se metiam no nosso artesanato e afinal, olhe, nunca tive nada... A não ser aqui a Câmara de Barcelos que me ajudou um bocadinho.

 

Mas deixe lá, hoje a sua arte é apreciada por muita gente.

Então não é?! Tudo me pede para eu não deixar ficar isto... mas é triste uma pessoa trabalhar sozinha. Olhe, quer que lhe diga, sem lhe mentir nadinha, eu falo e rio, isso tudo, mas o meu homem nunca mais me esquece na vida. Tenho muita família, mas não tenho ninguém a trabalhar comigo. Sinto-me muito triste... uma pessoa sozinha, nem para a mesa.

 

Se o comer for bacalhau, da badaninha, com molho cozido, o melhor é não haver muita gente à mesa... Coragem! Mas diga-me, para terminar, de todas as peças que fez e vendeu não tem mesmo saudade de alguma? 

Tenho. Tenho de umas alminhas que vendi para Paredes de Coura. E de uma galinha... não havia de vender e vendi. Foi para o Museu de Barcelos.

 

 


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