repórter

textos de Augusto Baptista

02 octobre 2006

O Seringador


Desde os anos 60, João de Almeida Arrepia é a alma d'O Seringador, folheto centenário que elegeu como figura emblemática um barbudo e emplumado desinfestador de sociais mazelas. 1

 

Texto de Augusto Baptista

 

À primeira vista, tudo suporia desencontro. Ele, asa celeste, nado em 1936, chão de Foz Côa, estudante em Vinhais e em Macau. Ela, nascimento no Porto em 1866, pendor terreno, vocação anticlerical. Mas quis a sorte que cruzassem destinos.

Foi na Lello que ambos se encontraram, nos anos 60: ele, ingressado nos quadros da empresa, livre da tropa e casado, de nome João de Almeida Arrepia; ela, que aí era editada, publicação com pergaminhos já quase centenários, chamada O Seringador.

Nos inícios laborais, João Arrepia assessorou José dos Santos Lino, Chefe de Redacção, e, depois de um breve pingue-pongue entre as áreas tipográficas e redactoriais, arcou com a responsabilidade de tudo coordenar. Entre o muito que havia a fazer, estava a anuária e seringante criatura.

O testemunho editorial do folheto passou-lho Mário Ferreira, velho tipógrafo, numa linhagem de transmissão com raiz em João Manuel Fernandes de Magalhães, o fundador. Os segredos da obra foi-os colhendo João Arrepia junto do editor precedente e em consultas, em estudos de Lunario e Prognostico Perpetuo para todos os reinos e províncias por Jeronymo Cortez, Valenciano, com 1.ª edição em 1703.

Nas suas mãos, exemplar coçado que hoje manuseia com destreza e apuro, o Lunario parece um missal. É a Arca que guarda a cifra do mistério, a descodificação dos desígnios do tempo e do Tempo, a explicação da Lua e do Sol nas gravidezes terrenas: «Vai-se aqui ao calendário, procura-se em quarto crescente, Lua de Janeiro. Os agricultores devem podar as árvores que dão flor temporã, como são as amendoeiras, ameixoeiras, pessegueiros e outras semelhantes; devem semear em terras quentes as pevides azedas e laranjas e limões e limas; plantar roseiras, fazer bacelos e borbulhias».

O Lunário é o Livro que revela o Áureo Número, a senha para penetrar ignotos mundos que O Seringador desvenda: «Para 2003 o Áureo Número é 9», conclusão que obriga a contas. «Ao ano junta-se uma unidade, divide-se pelos 19 ciclos da Lua, e o Áureo Número é o resto». Descoberto este, «consulta-se a Tabela Perpétua, feita por esse tal Valenciano, e, se formos ver Janeiro, dia tal, Lua Nova, aqui à frente está: vento ou trovões».

Para que não haja dúvida sobre o tecido matemático das ponderações e as inevitáveis consequências dos alquímicos resultados, judicia João: «Pelo dia do começo do ano, sabe-se que está dominado pelo planeta tal ou tal, que influencia isto, aquilo e aqueloutro, e, por conseguinte, será assim, será assado. Isto não é feito à toa».

«Isto» é O Seringador — «Reportório crítico-jocoso e prognóstico diário para 2003» — que, em função do Número Áureo e dos Elementos do Cômputo, por via dos segredos da Epacta XXVII e doutras secretas determinantes, derivadas de ter começo à quarta-feira, propõe este ano como «de roubalheiras medonhas» pela influência de Mercúrio, «planetóide medíocre» rico em azougue, a seiva dos «tratantes que fazem mão baixa do alheio». Daí ser aconselhável que nos precatemos com «alentado landreiro para conter aqueles que se apropinqúem para nos assaltar».

A denúncia das malfeitorias ao Povo vertebrou o projecto, desde o início. A este rumo João Arrepia continua fiel, modelando-o a estes tempos: «Antes O Seringador era anticlerical. Recebia-se muita carta da província a dizer que o padre tal andava com fulana e por aí fora. Então o Seringador, na conversa da Brízida, aqui no fim, apontava esses casos. Mas eu fui amenizando». Mesmo assim, nos tempos da Censura, qualquer leve seringadela a clérigo ou leigo era banida: «Os artigos tinham de ir à Rua de Santa Catarina. Tudo o que dissesse mal do Governo, o capitão cortava. Depois tinha-se de fazer ligações, para rematar».

Nos dias de hoje, «aumentos, injustiças sociais, isto tudo que se vê na televisão e não é mentira nenhuma», anima as alfinetadas do Seringador. E há anedotas, histórias humorísticas, lista de feiras e mercados, eclipses, fases da lua, calendários, conselhos contra o mau hálito, a azia, provérbios, signos, orientações agrícolas: «Tem de tudo. De maneira que uns é por uma coisa, outros é por outra, mas todos gostam». E nunca a tiragem foi tão alta: 60 mil exemplares!

O forte da procura é de Coimbra para cima, campo e cidade: «Viseu, Porto, Minho, Póvoa, Viana». Vai também para o Algarve, Alentejo, Açores, Califórnia: «Há um leitor próprio, o do costume». Por isso, não raramente, João Arrepia recebe cartas, opiniões, histórias, anedotas. E rimas, como as que ornam a capa d' O Seringador de 2003, da autoria do senhor Arlindo Pinto, de Felgueiras:

 

Os campos estão parados.

Apodrecem os arados.

Não há frutos sem semente...

— Por esta triste verdade,

já há quem tenha saudade

dos tempos de antigamente.

 

1 Texto elaborado em Dezembro de 2002 e publicado on-line (Outubro de 2006)

Posté par teodias à 12:24 - Gente do Porto - Commentaires [0] - Permalien [#]

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