repórter

textos de Augusto Baptista

30 septembre 2006

O tocador de trombone


Entre as artes gráficas e a música, Domingos Vieira gastou 73 anos. Um novato, comparado com os 120 — quase a fazer — da sua filarmónica: a Banda Marcial da Foz do Douro.

                                                                                                          Texto de Augusto Baptista

 

Pendurada na parede, no fascínio dos tons que o tempo reserva ao preto e branco, uma fotografia da banda. Coçadas, as vestimentas dos músicos. Na primeira fila, ao centro, algumas figuras à paisana. E magra presença de instrumentos.

Eu a perscrutar aquele tempo, este espaço cinza, seduzido pelos olhos de cinema mudo que iluminam alguns destes rostos, lateral, o falar labiado do meu acompanhante: «Sou aquele ali, a espreitar. Tinha 19 anos». Toada grave: «Já lá estão todos à minha espera. Sou o mais antigo, sou o músico mais antigo da banda».

Se a revelação levasse outra assinatura, não lhe daria crédito. Pelo aspecto, pela presença irrequieta, não imaginava Domingos José da Silva Vieira nascido em vinte e nove. Depois, 73 anos também não é idade que, habitualmente, dê para estatuto de tanta raridade.

E pungência. O preto e branco do retrato a transbordar para a vida. «O meu pai abandonou-me com dois anos. A minha mãe foi pai, mãe, avó, foi tudo». Aos nove anos, Domingos passou para o Internato Municipal do Porto; aos 11, transitou para o Colégio dos Órfãos: «Aquilo era um bocadinho difícil, não tínhamos quem nos ajudasse».

Havia a música a ensolarar os dias, a banda do Colégio, o aprendizado solitário de temas, partituras desencantadas nas gavetas: «Sempre gostei muito de hinos». E havia, uma vez por ano, a ida no cortejo da Queima, a convite dos estudantes de Medicina ou de Farmácia: «Só podíamos tocar A Mulher do Padeiro».

Em 1942, 43, conta Domingos, ia o desfile na Rua dos Clérigos, alguém entre os estudantes trauteou um tema alternativo, um dos hinos que, por sorte, Domingos aprendera. E logo a banda atacou a música, ele na trompete e na regência. Passados minutos, precipitado regresso aos acordes d'A Mulher do Padeiro, entre rebuliço de gente e de polícia. Mais tarde, apuradas responsabilidades no acontecido, «o director mandou rapar-me a cabeça, de castigo. Na nossa inocência, tocámos A Internacional».

Aos 16 anos largou o Internato, habilitado com a instrução primária e a frequência do 4.º ano do Conservatório de Música, na área dos instrumentos de sopro. Entra na vida activa, como tipógrafo, ingressa na Banda Marcial da Foz: «Nas artes gráficas ganhava cinco escudos por dia, numa actuação na banda — das 08h00 às 20h00, de sol a sol como a gente diz —, 50. Num só dia ganhava duas semanadas».

Na difícil conciliação da música com a tipografia, passou durante algum tempo pela Banda de Ramalde: «Estive lá até entrar para O Primeiro de Janeiro». Tinha então 32 anos e, com a admissão no Janeiro, regressou à filarmónica da Foz: «Trabalhava à noite no jornal e, na banda, fazia os serviços que pudesse».

Era muita a ginástica para, aos fins-de-semana, atender às duas frentes: «Saía às três da manhã, apanhava o vadio para casa e, às sete, arrancava para as romarias. Às nove da noite, jornal». Neste ping-pong se manteve até à reforma. Desde então, com carácter de exclusividade, é o homem do trombone.

A bem dizer, Domingos é um polivalente «bucal, nada de palhetas». Por outras palavras, não toca só trombone, ataca onde é preciso: trombone, trompete, tubas, «um tapa-furos, digamos assim». Desempenho difícil, calcula-se: «A trompete é a parte cantante, a tuba é a parte de acompanhamento. É um instrumento mais pesado — 15 quilos — e onde se gasta mais ar. Já por isso não tem grande manejo de melodias».

Longe dos 28 músicos que Domingos encontrou em 1946, hoje a Banda Marcial da Foz do Douro tem 52 elementos, quase o dobro. E há um viveiro de optimismo: cerca de meia centena de crianças, jovens e adultos a frequentar o ensino musical gratuito empreendido pela colectividade. E há as mulheres! As mulheres que salvaram a banda, as bandas! «Após o 25 de Abril, desde que autorizaram o elenco feminino a integrar-se nas filarmónicas, foi a salvação».

Hoje, novos e velhos, eles e elas, estes todos são a banda. A Banda Marcial da Foz, e as outras. Antigas ou recentes. Música dolorida, passo cadenciado, nas procissões; a faíscar rapsódias, no coreto. Com maestro, pratos, clarinete, bombos... E trombone.

 

1 Texto publicado na revista Notícias Magazine, 10 de Novembro de 2002.

Posté par teodias à 22:04 - Gente do Porto - Commentaires [0] - Permalien [#]

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