repórter

textos de Augusto Baptista

27 septembre 2006

O camarada doutor



Nos primeiros anos de Angola independente, decaiu o tratamento por senhor, senhora, sob a onda camarada. A ânsia colectiva de igualdade, fraternidade, liberdade, pautava então as relações. António Cadete Leite, médico do Porto e professor de Anatomia, não escapou à regra: era o camarada doutor. 1

 

Texto Augusto Baptista

 

 
Manhã de 1978, bem cedo, o funcionário entra-lhe de rompante pelo gabinete:
— Camarada doutor, está um morto vivo!
— Oh, oh, oh...
— Verdade, na mesa, no teatro anatómico, está um morto vivo! Respira, ele respira, camarada doutor!
Foi ver. Zé – o funcionário – a correr à frente, chega à sala, abre a porta. E fica-se por fora, a apontar:
— Vê, camarada doutor?!
No espaço amplo do teatro anatómico, as mesas inox com os cadáveres cobertos por lençóis impregnados de formol, imobilidade absoluta. Numa das mesas, mais longe, vendo melhor, de facto...
— Vê?! Vê?!
... de facto o lençol... a subir, a descer. A respirar! Evidência sublinhada pela agitação, fora de portas:
— Vê! Um morto vivo, camarada doutor!
Resoluto, avança, saca o lençol.
— Cuidado!
À luz estreme da manhã de Luanda, irrompe, cândido, um corpo. Corpo ébano dum doente do vizinho Hospital Psiquiátrico, presença seduzida pela quietude do espaço, para ali, dormindo, passar a noite.
António Cadete Leite não poderia prever momento mais humorado na vida, quando, em 1963, então alferes miliciano e jovem licenciado, embarcou para Angola a bordo do Uíge. Nos anos da guerra, foi para Quipedro, nos Dembos, a Norte. Meses de rotina no mato, um dia chegou à companhia o reitor dos recém-constituídos Estudos Gerais Universitários de Angola, André Navarro, a convidá-lo para a docência de Anatomia:
— Falei com o professor Mello Adrião, no Porto. Recomendou-me o seu nome. Em Luanda está tudo pronto, à sua espera.
Irrecusável desafio, voa para a capital. Aí chegado, afinal está tudo por fazer. Os Estudos Gerais, na prática e na vertente médica: «Eram quatro barrotes com umas chapas de zinco por cima, nas traseiras da Delegacia de Saúde. Não havia instalações, alunos, material pedagógico».
Ponto de partida, um osso — úmero encontrado em Quipedro —, o entusiasmo pessoal, os ensinamentos do velho professor Mello Adrião. E a febre oficial de avançar a toda a brida, por ordem de Salazar, pressionado pela conjuntura internacional.
Em pouco tempo aparecem instalações para a reitoria, carro para o reitor, «um Dodge preto com estofos vermelho-pontífice, encomendado pelo bispo». Por via aérea, chegam caixotes com ossos, vindos da Escola Médica do Porto. A Cadete Leite junta-se outro anatomista nortenho: Rui Abrunhosa.
Ano lectivo de 1963/64, as aulas arrancam. Entre os alunos, cerca de 30, três negros — referência essencial para o regime. Cadete Leite e Rui Abrunhosa respondem pelas aulas teóricas, avaliações, exames, embora a regência esteja com Oliveira e Silva, professor. À equipa outros quadros entretanto se agregam: Valdemar Teixeira, António Galhordas, Mário Moura, Nadais de Vasconcelos.
Em meados de 1965, Nuno Grande, recém-doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é mobilizado para Angola, colocado na Anatomia, também em regime de acumulação. Então com 30 anos, Cadete Leite termina a comissão, decide permanecer, entusiasmado pela docência, pela preparação do doutoramento: «Tinha a tese praticamente pronta quando veio o 25 de Abril».
Nestes dias, outras passam a ser as prioridades. Tese adiada, é a transição da Angola colonial para a Angola independente. E, de novo, decide ficar: «Dei muito antes, mas muito mais depois da independência. Foi o período de maior satisfação e trabalho da minha vida». Ao ensino médico juntam-se outras frentes, nos Ministérios da Saúde e da Educação, em Luanda, Huambo, Bié; no arranque e direcção da "Associação 25 de Abril".
Regressa ao Porto, à sua velha Escola, em 1984: «Antes de vir, quis deixar pessoas absolutamente capazes na Anatomia, como, aliás, o Fernando Rama, na Histologia. A Faculdade de Medicina de Angola vale hoje pelos docentes angolanos que lá estão».
Doutorado em 1989, integra o quadro do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto e o Centro de Morfologia Experimental — prestigiada unidade de investigação em neurociências —, estruturas dirigidas pelo professor Manuel Barbosa.
E enfim o Porto, convívio demorado com companheiros, com mestres: Abel Tavares, Pinto Machado, Levi Guerra, Castro Correia. A revisita aos lugares marcantes da juventude, da infância: o Liceu Alexandre Herculano, a Igreja do Bonfim, a loja do pai "especializada em fazendas, malhas e miudezas", a casa da família, na Rua Pinto Bessa.
Memórias! A ida à missa de mão dada com os pais, o coro, as confissões ao padre Abílio, os domingos de Banda pelos coretos da cidade, o violino pequenino que lhe fez o avô, a escola da dona Clara e do senhor Coutinho, mesmo por cima de uma oficina de pratas, o martelar da cinzeladura, nítido, eterno, tim! tim! tim! tim!

 

1 Texto elaborado em Dezembro de 2002 e publicado on-line (Setembro de 2006)

Posté par teodias à 22:48 - Gente do Porto - Commentaires [0] - Permalien [#]

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