repórter

textos de Augusto Baptista

25 septembre 2006

Humor em Abel Salazar


De Abel Salazar prevalece a imagem do circunspecto cientista e professor da Escola Médica do Porto, do artista grave, cores penumbrosas e térreas, desenhos cinza-carvão, cobre martelado... E no entanto — artista da vida, permanente deslumbre pela Mulher, investigador emérito, homem de causas — Abel Salazar foi um cultor da alegria luminosa, um devoto do riso, faceta menos conhecida da sua obra.

Mestre plural, vida de 57 anos — nasceu em Guimarães, 1889, faleceu em Lisboa, 1946 — «a necessidade sôfrega de estar presente em tudo aquilo que tivesse por alvo a presença do homem» foi, no dizer de Fernando Namora, catalizador que o levou a intervir em múltiplas esferas do saber e da expressão criativa, marcando-as com o seu cunho de excelência.

«Pela variedade e brilho dos dotes, inclusive os científicos, aparentava-se a alguns dos grandes artistas da Renascença», dele disse Ferreira de Castro. Opinião que uma visita à Casa-Museu com o seu nome, em S. Mamede de Infesta, Matosinhos, permitirá fundamentar e perceber em toda a extensão. Aí, a obra exposta e a documentação disponível dão eloquente testemunho dos muitos campos que abraçou, em que se distinguiu.

Síntese de tempos persecutórios, lá está a fotografia (1934) — acusação do tamanho de uma parede inteira — onde, numa humilde carroça, o professor arruma os seus livros e papéis, após o salazarismo o haver proibido de exercer a docência universitária. A este episódio, anos depois, se haveria de referir Manuel Mendes (in Abel Salazar, Retrato em Movimento): «Certa noite, depois do jantar — com que humana e salutar alegria ele comia! —, ficámos abancados, no gosto do café e do cigarro que envolvem a conversa numa atmosfera acolhedora. Falava-nos das suas infindáveis desventuras, do laboratório e dos livros acarretados numa carrocinha puxada a burro, e ria, ria divertidamente, como se a grande infelicidade e a torpe injustiça fossem apenas um espectáculo cómico».

Cedo começou «a caminhada para o fogo», na palavra de Nuno Grande. Capaz de tirar da desgraça «o partido heróico de rir», desde jovem trouxe o bom humor para o papel, atreveu-se à subversão inocente do risco cómico nos sacrossantos livros escolares. Na Escola Médica, ousou a caricatura de mestres e de companheiros, provou o gozo do chiste gráfico, provocador, irreverente. Em 1915, participou na Exposição de Humoristas e Modernistas.

No Museu de História da Medicina Professor Maximiano Lemos, instalado no 6.º piso do Hospital S. João, no Porto, fomos descobrir, pela mão da directora, profª Amélia Ferraz, um valioso acervo de dezenas de caricaturas e desenhos humorísticos da lavra de Abel Salazar. Dessas obras, produzidas sobretudo entre 1910 e 1913, algumas trazemos às páginas da NM. Outras lá estão, à espera de visita. Em umas e outras pulsa o riso, espontâneo e fértil, o excesso transgressor, o fogo do grande Abel Salazar.

 

 

Publicado na revista Notícias Magazine

Texto de Augusto Baptista

 

 

Casa-Museu Abel Salazar

Rua Dr. Abel Salazar

Tel/Fax 229010827

Email: cmabelsalazar@um.geira.pt

S. Mamede de Infesta — Matosinhos

 

2.ª a 6.ª

09h00 às 12h30

14h30 às 18h00

Sáb., Dom., Feriados

10h00 às 12h30

14h30 às 18h00

 

 

Museu de História da Medicina

Professor Maximiano Lemos

Hospital S. João, 6.º Piso

Porto

 

Dias úteis

09h00 às 12h30

14h00 às 17h00

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