repórter

textos de Augusto Baptista

25 septembre 2006

Mãos iluminadas


Reformada, avó, viúva, decidiu aprender artes decorativas, depois pintura. E de repente, aos 70 anos, nascia um nome incontornável na arte naïf: Maria Vilaça.

 

 Presente no universo da arte há meia dúzia de anos, as suas criações já correm mundo, constam do acervo de museus, são conhecidas e apreciadas entre coleccionadores e especialistas. E das muitas escolhas que o comprido nome lhe proporcionaria para assinar as suas telas, optou por Maria Vilaça.
Em Outubro, abalançou-se a mais uma exposição individual, desta vez na Casa Jorge de Sena, sede do INATEL, no Porto. Foi aí que a Notícias Magazine a descobriu, com ela percorreu a mostra. E conversou.
— Nestes seus quadros, curioso, a cara das pessoas não tem nariz, olhos, boca.
— Não tem porque eu nunca fiz, não faço.
— Há alguma razão especial?
— Comecei a fazer assim, são ideias. Será a minha caligrafia, como muita gente diz. Uns põem uns braços pequeninos, outros...
— Mas neste quadro aqui, "Banho de Lua", há uma mulher com seios.
— Maminhas não são cara.
— E tem sexo?
— Tem, mas está tapado.
— Mas o rabo não.
— Alguma coisa tem de estar à mostra. E o rabo não ofende.
O diálogo iria prosseguir animado, dividido, eu a ver namoros entrosados em "Ouro sobre azul", onde, num éden colorido, afinal e segundo a autora, estarão plasmados cândidos sentimentos de ternura familiar.
E quando me dispunha a ver tudo imaculado, desconcertante, ela haveria de esgrimir a fotografia de "Despertar", quadro que tem árvore com tronco de mulher nua, cabelos transmutados em frondosa copa derramada entre braços vegetais. Por perto, um casal de namorados.
— Ele está a dar-lhe uma ramo de flores e a visioná-la já.
— Mas isso é muita malícia — anoto.
— Então um rapazinho de 15, 16 anos, ao ver uma mocinha, não a imagina de fato de banho, pelo menos?!
— Mas diz-se que a pintura naïf é muito pura, ingénua.
— Ingénua para significar que não segue a parte académica, que a pessoa pintou como sabia...
— ...ou não sabia.
— Olhe, eu tenho um quadro, chama-se "Aposta", com três rapazes a fazerem chichi, para ver quem faz mais. Também é uma malandrice.
A transgressão em Maria Vilaça pode estar também no título da obra, como em "Quem tem cu tem medo": no centro da arena a besta negra, corno alçado, toureiro a saltar as tábuas, descalço, capa perdida. Pode estar na inversão do ponto de vista, na assunção do outro lado, como na soberba "Chegada a Cabo Verde", tela presente na EXPO 98 e que hoje integra o acervo do Museu Internacional de Arte Naïf, no Rio de Janeiro:
— Nós dizemos que chegámos lá, vimos os pretos sem roupa, muitas palmeiras, cocos. E eles, o que viram eles?

Igual a Saramago

Maria Eduarda Gomes Vilaça Barbosa de Barros nasceu em Valongo, em 1927, tem 75 anos. Em criança veio para o Porto, aqui fez a instrução primária e, mais tarde, um curso comercial, no Colégio Nacional do Porto. Estenodactilógrafa, empregou-se na CIBA, casou, teve dois filhos, netos, reformou-se.
Há treze anos, o marido, funcionário bancário, faleceu. O filho com quem vive sugeriu-lhe então que integrasse as actividades do INATEL, para se distrair. Decidiu fazê-lo aos 68 anos, não com a ideia de passear e conviver, mas para aprender: artes decorativas, durante dois anos; depois pintura, numa breve introdução.
Apesar da asa criativa, pintar sempre esteve fora dos seus horizontes: «Queria escrever, ia lá sozinha. Queria um bordado, via um bocadinho, depois fazia a partir dali. Mas o mundo da pintura sempre me passou ao lado, não tinha bases, não sabia que a terebentina se ligava com o óleo, as percentagens, essas coisas».
No aprendizado dos rudimentos técnicos descobriu a insatisfação de realizar simples cópias bonitas de postais ilustrados, abalançou-se a inventar, concretizou "O lançador de papagaios". Sofridamente: «Eu não sabia como desenhar as pernas das pessoas e o professor dizia-me Ó minha senhora, não adivinho o que tem na cabeça. Faça à sua maneira».
Na exposição colectiva dos trabalhos, o quadro lá estava. E deu nas vistas: «Tanta pureza, tanto isto e tanto aquilo. Parabéns, fez um lindo quadro naïf!». Os elogios, a categorização, apanharam-na desprevenida: «Eu sabia lá o que era um quadro naïf».
A partir dessa altura, não mais parou. Entretanto, veio a conhecer Mestre Isabelino, «o pintor naïf mais importante do mundo», que lhe deu alento, a mandou continuar. Conversou com Mestre António Joaquim, outro grado incentivador. Inscreveu-se na Associação dos Pintores Primitivos Modernos, com sede em Lisboa, presidida por Luísa Caetano. E expôs, expõe, por muito lado, em Portugal e lá fora.
Cada tela é um passo num percurso todo feito à sua custa, como insiste em esclarecer. Concretiza por tentativas, aproximações, ensaios: «Tenho um quadro em que queria pintar uma mesa encostada à parede. Mas a mesa subia-me pela parede acima. Sofri muito para a pôr cá em baixo». Com mais domínio da técnica e do desenho, tudo seria mais fácil: «Punha logo a mesa no chão e acabou».
A tendência voadora continua a atormentá-la «em algumas coisas, noutras não. Ainda hoje, se eu quiser fazer um telhado, minha Nossa Senhora!». Outro contratempo é — confessa — o funesto vício, a mania de começar logo com as tintas e, quando se engana, vê-se obrigada a raspar tudo, a começar de novo: «À primeira, muitas vezes sai mal».
Quanto ao processo criativo, diz ter afinidades com José Saramago: «Numa entrevista, ele disse que primeiro dava nome ao livro, depois trabalhava o nome, escrevia. Eu é igual. O meu quadro já está baptizado, antes de começar. É como um menino que, sem ainda estar cá fora, já tem nome».
Para Maria Vilaça, insatisfação, dúvida, atrevimento, são referências numa prática com indícios de teorização: «Há que evoluir, não pensar que naïf é só bonequinhos no adro da igreja. Naïf é não ter normas, é ser espontâneo». É estar à altura da herança dos pintores primitivos antigos, «os capelistas, aqueles que faziam os retábulos das igrejas, não académicos e grandes nomes».
Depois, essencial no acto criativo, «é ter uma boa ideia e corporizá-la de maneira a que toda a gente a entenda». Ora, em sua opinião, o busílis da pintura é justamente conseguir que a tela transmita o que se quer comunicar. Para saber se sim ou não o quadro cumpre esse objectivo, tem um recurso, um sensível aferidor secreto, com doze anos.
A carta na manga chama-se Rita. Neta e juíza, é ela a apreciadora da obra acabada: «Quando pintei "Chegada a Cabo Verde", a Rita tinha 8 anos. Chamei-a, perguntei-lhe o que via ali. Ai vovó, vejo aqueles meninos nus a olhar os barcos, muito assustados. É isso que eu quero, pronto. Transmiti a mensagem».

 

Publicado na revista Notícias Magazine – 12 de Janeiro de 2003

Texto de Augusto Baptista

Posté par teodias à 16:59 - Gente do Porto - Commentaires [1] - Permalien [#]

Commentaires

    Conheci-a hoje.

    Num encontro dos Amigos do Porto, conheci a pintora Maria Vilaça e travei com ela uma gostosa conversa. Espero em breve vir a conhecer os seus trabalhos.

    Laura

    Posté par Laura Garcez, 31 mars 2007 à 21:40

Poster un commentaire