repórter

textos de Augusto Baptista

21 septembre 2006

A Ferra da Cabreira

 

A Ferra da Cabreira 1

 

Com a chegada dos dias grandes e quentes, os criadores de Vieira do Minho juntam as eguadas garranas da Cabreira e, na cerca de Cantelães, organizam a Ferra. Um rito anual que marca a fogo o corpo dos cavalos e a vida dos homens.

 

Augusto Baptista

 

Avança a corta-mato, entre tufos de carqueja e urze, vegetação rasteira.

— Carriça! Carriça!

 A voz, o vulto que caminha na serra traz uma saca de milho entre mãos a remexer, rumor apetitoso. Perto, no bando, uma cabeça se levanta.

— Carriça...

Alvoroçada, olhar de passarinho engodado, Carriça rompe ao encontro da mulher que chama, mão plena de milho gordo, reluzente. Familiar, terna, sempre mais perto, ela vem. Vem comer, na mão da dona.

Adelaide Jesus Gonçalves Campos, nome «comprido como uma trave», com frequência visita a serra da Cabreira, por cima de Cantelães, para ver a sua menina. «Eu criei-a de pequenina, depois botei-a no monte. Mas venho sempre vê-la, agarrá-la, coçá-la. Falar com ela». A dona chega, nas mãos um saquinho de milho, tentador, chama nome de passarinho: «Carriça! Carriça! Ela aparece, a correr, a relinchar».

Adelaide é uma pequena criadora de garrano, entre as serranias da Cabreira, sobre Vieira do Minho, distrito de Braga. Por força da Ferra de Cantelães, este 7 de Julho, de novo ela e a égua se encontram. E falam, cada uma a seu modo, durante horas.

A Cabreira alberga algumas centenas de cavalos, em grande parte «marcados para garrano». A esta população equina correspondem cerca de 100 pequenos criadores, como Adelaide, sentimental e materialmente ligados aos seus animais. Estes, com frequência, são baptizados com nome de passarinho: Andorinha, Andorinho, Pardal, Rola... E, soltos na serra, tal qual Carriça, «andam em bandos, cada macho tem o seu».

A propósito desta estruturação e da fidelidade grupal da população equina, Manuel João, criador de Vieira do Minho, conta: «O ano passado, para ter um potro e o lobo não mo comer, trouxe uma égua para uma coutada fechada. Quando tal, fugiu-me, foi ter à serra, ao bando».

Este criador tem três éguas e um potro na serra da Cabreira. Com a vida, aprendeu que garrano «é um gado de menos mantimento e valente, que se aguenta melhor ao temporal». Outras raças mais encorpadas são menos resistentes, «é gado mais mimoso». E isso pode trazer prejuízos.

Manuel tinha um alazão: Gigante, no nome e no tamanho. Um dia, de repente, o cavalo começou a inchar, «ao fim de quatro horas, foram-se os quinhentos contos que me davam por ele».

Num contexto que — por enquanto — atribui pouco valor à raça, priorizando peso e corpulência, os criadores, economicamente orientados pelo mercado, são tentados a cruzar os seus animais com outros de maior porte. Os incentivos comunitários com vista à defesa e preservação das raças autóctones, a tradição, os laços homem-cavalo, as acções técnicas no âmbito da Associação de Criadores têm condicionado a tendência e ajudado a salvar o garrano. A proverbial robustez e a resistência da raça têm feito o resto.

Este Inverno, mesmo entre garranos, os rigores na serra fizeram estragos. Foram grandes as baixas nos efectivos. «O gado apanhou muitas gripes», diz um criador. E, apontando para a manada, no cercado grande de Cantelães, «mas as burras que resistiram estão bonitas».

Ao todo, a manada que os homens recolheram na serra, e trouxeram para baixo, tem à volta de 200 cabeças. Este ano, os criadores e a sua associação optaram por não concentrar, de uma só vez, todos os bandos da Cabreira: um grande efectivo complicaria a tarefa.

Desde madrugada, grupos de criadores e responsáveis da Associação dos Criadores de Equinos de Raça Garrana, ACERG, treparam às zonas altas para juntar os animais. Com esforço, muitas horas de trabalho, muita paciência, aos poucos a manada foi engrossando. Pelo final da manhã, quando o denso nevoeiro levantou, na Chã da Valdégua já se viam os cavalos pela Fonte da Urze, na encosta. Já se ouvia o vozear dos homens, os relinchos da eguada.

Não tardou que o percurso descendente se completasse, com os animais, fustigados por berrarias e impropérios, a darem entrada, às golfadas, no cercado grande, redondezas baixas do Alto do Crasto, lugar de lendas, de tesouros e de minas encantadas.

A zona vedada é uma extensa área em que a manada se espraia à vontade. A partir daqui, facilmente os criadores podem conduzir os bichos para o curral da ferra, espaço mais exíguo, plantado numa encosta declivosa, quase a pique. Na breve zona chã deste lugar, delimitado por rede metálica, o território afunila. É a antecâmara de um obrigatório corredor, alto e estreito, erguido em troncos de madeira, jeito tosco.

Em reboliço para cima e para baixo, os cavalos vão passando pelo apertado corredor, um a um. Aqui, sem remissão, se exerce o controlo zootécnico, sanitário e genético. Novos, velhos, éguas e garanhões são pulverizados com líquidos desparasitantes, são obrigados a embocar coloridas infusões, e a terem de aturar, às vezes, o destempero dos homens. Os potros que respondem aos itens da raça centram atenções e variados desempenhos técnicos, científicos. E são registados, marcados a fogo: acção imperativa.

A Ferra é um extenuante labor de muitas frentes, que se arrasta por um longo e duro fim-de-semana: «Hoje é para o gado da serra. Amanhã para o que está pensado na corte». E é também um rito de fogo, a marcar o corpo dos cavalos e a vida dos homens.

Quando tudo terminar, os criadores voltarão a casa, a eguada da Cabreira subirá à serra. Entre companheiras, potros e garanhões, no bando irá Carriça. E, um dia, às altas serranias a saudade levará uma voz, vulto de mulher, nas mãos um saquinho de milho gordo, sussurro tentador.

— Carriça!

 

1. A Ferra que aqui se reporta ocorreu no dia 7 de Julho de 2002, em Cantelães, Vieira do Minho. Este texto só se encontra publicado on-line.

 

 

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

 

 

Em nossa defesa

Garrano é um cavalo pequeno — 1,35 m de altura máxima ao garrote —, castanho, cabeça com perfil recto ou côncavo. Com uma população a rondar os mil exemplares, tem solar no Minho — serra da Cabreira e Parque Nacional da Peneda Gerês. Os criadores desta importante raça de cavalos, única no Mundo, correspondem no total a cerca de 300 famílias. Povo pobre e nobre. Como o garrano. 

O grosso dos efectivos garranos vive em liberdade, alimenta-se da vegetação que, espontânea, cresce nas serranias, no baldio minhoto. Raça autóctone, «corre perigo de extinção dentro de um máximo de 10 anos», visão negra, «infelizmente realista», como alerta José Vieira Leite, médico veterinário e responsável pela defesa da raça.

A inversão da tendência passa pelo ordenamento da serra da Cabreira, pela defesa do baldio, pelo incremento dos subsídios aos criadores, pela divulgação das qualidades e nobreza da raça, por um sério protagonismo garrano em apostas culturais, desportivas e turísticas, de qualidade.

Enfim, faz falta descobrir o garrano, dar-lhe estatuto, investir forte na sua defesa, na defesa das outras raças autóctones. Enquanto povo, somos também esta nossa circunstância.

 

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

 

 

Posté par teodias à 07:41 - Commentaires [0] - Permalien [#]

Commentaires

Poster un commentaire